Dois ídolos em revisão

Bethânia revisita Chico e Lulu canta Roberto e Erasmo em série que inclui Sandy

LAURO LISBOA GARCIA, RIO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h08

Maria Bethânia cantar Chico Buarque é algo tão corriqueiro quanto os bons motivos que a levam a ser considerada por ele sua melhor intérprete. Porém, é a primeira vez que a cantora faz um show inteiro só com o cancioneiro buarquiano. E acena com novidades no repertório, além dos clássicos dele que já gravou.

O show - que estreia domingo em Curitiba, no Teatro Guaíra, e aporta em São Paulo na terça, na Via Funchal - integra a série do Circuito Cultural Banco do Brasil. Idealizado e dirigido por Monique Gardenberg, com assistência de Toni Platão na curadoria, o projeto traz ainda Lulu Santos ressaltando o componente mais rhythm and blues de Roberto Carlos e Erasmo Carlos (amanhã em Curitiba e quarta em São Paulo) e Sandy revisitando Michael Jackson. Depois eles seguem para Ribeirão Preto, Goiânia e Recife.

Bethânia diz que quando Monique fez a proposta para esse show nem vacilou. "Mesmo porque estou trabalhando na obra de Chico, mas é uma coisa para mim. Estou estudando, revendo Chico todo. Então foi bom esse convite, porque é como quando fui gravar Vinicius (de Moraes) - os dois com uma obra imensa e de uma qualidade rara", diz.

Para Bethânia subir no palco, mesmo que seja projeto dos outros, tem de ter "uma linha de dramaturgia". "Preciso ter uma condução, às vezes lembrar um trecho de uma canção de Chico para que ela prepare a outra que vou fazer, como às vezes uso texto em cena. Tive de escolher assim."

Por ter poucos ensaios, ela deu preferência ao que já está acostumada, "para poder ficar mais prazeroso, menos tenso de fazer". Porém, também escolheu canções dele que nunca cantou, como A Rita, Funeral de Um Lavrador, Soneto. "Vai Trabalhar Vagabundo não vejo a hora de cantar, é o que mais me atrai", diz, rindo. Do roteiro "gigantesco" devem ficar 42 canções entre inteiras e citações, incluindo Com Açúcar, Com Afeto, que ela cantou apenas na temporada do show Comigo me Desavim, em 1967, Sem Açúcar, Cotidiano, Valsinha.

Entre os segmentos temáticos do roteiro há os que tratam de abandono e de heroísmo. "Por exemplo, falar em Chico e não se tocar em Morte e Vida Severina é errado. Isso é o garoto Chico. Monique descobriu e me mandou coisas deslumbrantes dos cadernos dele quando menino, com aquela letrinha. Alguma coisa disso ela vai usar cenicamente."

A maior novidade é Sinhá (parceria com João Bosco), a canção mais forte do novo álbum dele, Chico. "Pra mim é a música mais bonita que ele já fez na vida, esse disco dele pra mim é o mais importante, o mais bonito da música popular brasileira depois de Elizeth (Cardoso) cantando Chega de Saudade. No primeiro acorde que ouvi tive vontade de chorar."

Música de preto. Com Lulu Santos, Monique não acertou de primeira. A proposta inicial era para ele cantar Beatles, mas não topou por ser óbvio e desgastado demais. A segunda sugestão foi Elvis Presley, que não tem nada a ver com ele. Depois de muito matutar acabou optando por Roberto e Erasmo, juntos e individualmente, a começar por Sentado à Beira do Caminho. "Com Erasmo foi mais solto, porque ele continua pop-rock até hoje. De Roberto escolhi mais a parte imatura mesmo, de iê-iê-iê, mas tem também As Curvas da Estrada de Santos e É Preciso Saber Viver", conta Lulu, que aos 21 anos, em 1974, tocou na banda que acompanhava Roberto, fazendo uma substituição.

Lulu já contou com Erasmo cantando música sua ao lado de Rita Lee (Ronca, Ronca) e gravou O Calhambeque (hit de Roberto, versão de Erasmo para Road Hog), além de Se Você Pensa (da dupla). "Para mim é importante a história do amor deles por música americana, pelo rhythm & blues, pelo blues, pelo que é formativo, porque eles, assim como Tim Maia e Jorge Ben, têm uma formação que Beatles e Rolling Stones mais ou menos tinham", compara.

A diferença é que os ingleses "eram mais fissurados na história do blues mais puro, tinham isso como um hobby, um fetiche". "Já os nossos pegavam mais a onda do doo-wop, do R&B não adulterado. Eu faço música por causa de música de preto americano. E quanto mais o tempo passa mais tenho certeza disso." E é nessa levada de R&B que ele montou esse show, em que "tem uma reavaliação verdadeira e honesta do valor da música dos dois".

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