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Dois gigantes na ilha deserta

Um livro mostra como foi que Drummond acabou cedendo aos encantos de Machado

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2019 | 03h00

Dessas coisas difíceis de acreditar: Carlos Drummond de Andrade, nosso maior poeta, de nariz torcido para Machado de Assis, nosso maior prosador – e no entanto aconteceu. Como aconteceu também, ao cabo de longo processo de amadurecimento não só literário, de o mocinho que em 1925 recomendara “repudiar” o autor de Dom Casmurro a ele se render sem condições, ao ponto de lhe dedicar, em 1958, um poema, “A um Bruxo, com amor”, cujos 90 versos se compõem de fragmentos garimpados na obra de Machado e montados com toda a arte do melhor joalheiro.

O percurso de três décadas entre a declaração do jovem Drummond, então nos seus 22 anos de idade, e amorosa rendição do poeta consagrado e cinquentão, tinha já sido retrilhado por estudiosos dos dois mestres, numa tortuosa viagem em busca do que disse sobre Machado o autor mineiro em seus poemas, artigos, crônicas e entrevistas. Viagem que, agora, se pode fazer com prazer e sem perda de tempo, graças a um esplêndido trabalho de Hélio de Seixas Guimarães, especialista em Machado de Assis e professor da USP, cuja peneira fina recolheu na obra de Drummond o que lá houvesse a respeito do Bruxo do Cosme Velho. 

O resultado desse esforço chegou às livrarias com um título que faz lembrar o Há uma gota de sangue em cada poema, de Mário de Andrade: Amor nenhum dispensa uma gota de ácido – frase que Hélio Guimarães pescou numa entrevista de Drummond a Lya Cavalcanti, nos anos 1950, papo saboroso e comprido o bastante para render um livro, Tempo Vida Poesia, publicado em 1986, um ano antes da morte do poeta. 

Ao falar de suas leituras de formação, o poeta conta ali que, “pela graça de Deus”, chegou “cedinho a Machado de Assis”. Acrescenta: “Deste não me separaria nunca, embora vez por outra lhe tenha feito umas más-criações” – e, para justificar as caneladas, saca a frase que daria nome ao livro organizado e prefaciado por Hélio Guimarães.

A primeira de uma série de más-criações veio no primeiro dos três números de A Revista, que Drummond e outros frangotes da literatura, entre eles Pedro Nava, João Alphonsus, Emílio Moura e Abgar Renault, lançaram em Belo Horizonte três anos depois da Semana de Arte Moderna. No artigo “Sobre a tradição em literatura”, o Drummond de 1925 não esconde sua admiração por Machado de Assis – “Amo tal escritor patrício do século 19, pela magia irreprimível de seu estilo e pela genuína aristocracia de seu pensamento” –, mas vê nisto, exatamente, “um entrave à obra de renovação da cultura geral”. 

O jovem poeta se pergunta o que fazer – e, certo de que “a razão está sempre com a mocidade”, encontra resposta “clara e reta”: é preciso “repudiar” do criador de Brás Cubas. 

Drummond, àquela altura, já estava embarcado na experiência para ele decisiva de corresponder-se com Mário de Andrade, que irá morrer, em 1945, sem ter deixado de considerar Machado um problema. No calor da hora, estava longe de ser o único pioneiro do modernismo a ver nele uma iguaria de difícil digestão, por não se tratar de um “passadista” qualquer. 

“Uma pedra no caminho”, cravou Hélio Guimarães dias atrás, num papo dos mais interessantes com Rita Palmeira, nesse não menos interessante oásis paulistano que se chama Tapera Taperá, no piso mais alto da outrora gloriosa Galeria Metrópole. Segundo Hélio, daquela turma iconoclasta o primeiro a deglutir Machado devidamente, destacando-o do ranço irremediável de outros velhos escribas, foi Oswald de Andrade – o que só mais adiante, já bem entrados os anos 1930, viria a fazer, entre outros, Augusto Meyer, e também Marques Rebelo, capaz de reconhecer no autor do Brás Cubas ao menos um “fantasma camarada”.

É fascinante acompanhar, nas páginas de Amor nenhum dispensa uma gota de ácido, a gradual aproximação de Carlos Drummond de Andrade daquele gigante que, na juventude, lhe parecia ser, embora portentoso, ou por isso mesmo, um mestre a descartar. Quando, nos anos 1950, a Academia Brasileira de Letras construiu seu mausoléu no cemitério de São João Batista, vicejou entre seus futuros habitantes a ideia de transladar para lá os restos imortais de Machado, tirando-os do “leito derradeiro” no qual o fundador da ABL, por vontade expressa, desde 1908 jazia ao lado de sua amada Carolina. Drummond foi contra, indignadamente contra – e, em manifestações veementes, ajudou a pôr a pique o infeliz projeto. “Levante a Academia o seu grandioso sarcófago”, fulminou ele, “e ponha dentro quantos almejem magnificência fúnebre. Machado, não.” 

Espécie de modernizador da figura de velho Bruxo, como lembra Hélio Guimarães, capaz de reconhecer nele um olhar percuciente e uma fatura sem data de validade, Drummond procedeu a uma exumação não literal, exumação literária, do objeto de sua crescente admiração, que por décadas estivera quase escanteado pela geração modernista. 

Em dado momento do processo de aproximação, ainda relutante, o poeta concedeu a Machado espaço na bagagem a levar para uma ilha deserta. No início, espaço bem modesto – não mais, digamos, que um strapontin, aquele assento suplementar que só podemos abaixar quando o ônibus não esteja lotado. 

Mais adiante, na fluvial entrevista de Tempo Vida Poesia, o poeta voltaria ao tema da bagagem literária. “Se me derem Machado na tal ilha deserta”, disse então a Lya Cavalcanti, “estou satisfeito” – e afivelou a mala: “O resto que se dane, embora o resto seja tanta coisa amorável”.

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