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Dois coelhos

Efeitos especiais e cenas de ação fazem do filme um marco da produção no País

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2012 | 03h01

Dois Coelhos. Provavelmente o filme brasileiro com maior número de efeitos especiais (físicos e digitais) da história. E mais: totalmente feito em casa. Ou quase. "Tirando os efeitos da cena da explosão 3D, que foram feitos por um amigo iraniano que mora em Londres, e os feitos físicos, a cargo do Farjalla, da Farjalla FX, tudo foi feito aqui na Black Maria", explicou o diretor Afonso Poyart.

A Black Maria é a produtora de Poyart, localizada em um sobrado em Pinheiros, que atua majoritariamente em publicidade. Dois Coelhos é seu primeiro longa-metragem, filmado com verba própria e finalizado com recursos arrecadados em edital de finalização. Não foi por falta de tentar que o diretor não conseguiu levantar a verba para filmar. "Submetemos o roteiro a concursos e editais, mas não achavam que seria possível fazer um filme complexo como este só com 'baixo orçamento'. Então decidimos filmar com grana da Black Maria." Foi também na produtora que a equipe enxuta trabalhou por um ano na finalização de uma trama que mistura ação, efeitos visuais, estética de videogame, romance, traição, tiros, explosões, estilhaços, balas que entram pelo cano e pela parede, reviravoltas e um roteiro cheio de armadilhas.

É por essas e outras que, nas duas semanas em que está em cartaz, 2 Coelhos tem surpreendido e agradado a gregos e troianos. E tem conquistado até mesmo os mais incrédulos quando o assunto une 'cinema brasileiro' e 'filme de ação'. Depois de abrir seu leque para os mais variados temas, cenários e formatos, o cinema nacional prova agora que brasileiro sabe fazer filme de ação sim. Após a sessão da matinê de domingo de um shopping de São Paulo, um espectador dizia: "O mais bacana é que os efeitos ajudam a contar a história. E que história! E tem cenas em São Paulo que nunca vi antes. Fui office-boy e rodei muito pela cidade. E sempre pensava em como lugares pelos quais passava ficariam na telona do cinema. Hoje, vi várias das cenas que imaginei. Foi como se o diretor adivinhasse o que eu pensava. Fora que as cenas de tiro e explosão não devem nada para o Tarantino".

Quem quer focar no drama, vai encontrar drama nesta trama sobre um jovem, Edgar (Fernando Alves Pinto), que bola um plano ousado para matar dois coelhos com uma caixa d'água só e eliminar um deputado corrupto (Jader, Roberto Marchese) e um criminoso (Maicon, Marat Descartes). No meio do caminho, Edgar se envolve com a promotora pública Júlia (Alessandra Negrini).

Já quem, como Edgar, o personagem de Fernando Alves Pinto, tem uma verve geek e adora efeitos especiais, joguinhos de computador, estética de videogame e videoclipe, não sai ileso e passa horas pensando nos efeitos que são tão importantes quanto o roteiro, direção e atuações impecáveis.

Portanto, o ano levado na pós-produção se justifica em cada frame do filme. "Claro que se tivéssemos mais grana teria levado metade do tempo, mas não tínhamos nem orçamento nem equipe, já que no Brasil não há tantos profissionais livres no mercado", contou Poyart, que mostrou e abriu ao Estado, os principais processos de criação de efeitos do filme.

Não é exagero dizer que 2 Coelhos é uma colcha de retalhos muito bem costurados. Não foram poucas as cenas em que imagens reais, filmadas com efeito físico contra um fundo verde, ganharam tratamento e cenário digital na pós-produção. Para melhor visualizar, ótimo exemplo é a cena da maior explosão da trama, quando o personagem do deputado Jader vai pelos ares ao tentar alcançar uma mala cheia de dinheiro, em pleno centro de São Paulo. É esta a 'finalizada' em Londres. "Não ia ser possível produzir aquela explosão em plena cidade. Resolvemos fazer em animação 3D, que seria aplicada à cena real do ator correndo", explicou Poyart. "Havia movimento de câmera, real e animado. Seria quase impossível fazer sem animação, mas, ao mesmo tempo, não tínhamos know-how. Em publicidade não se explodem muitas coisas."

É notável que em 2 Coelhos Poyart conseguiu filmar e editar de forma que a ação favorecesse o roteiro, que faz sentido usar efeitos especiais, montagem rápida, planos fechados filmados com uma lente longa, que gera tensão já na cinematografia da história...

O processo não foi fácil, nem rápido, mas foi tão artesanal, sem perder o profissionalismo, que o orçamento final do filme, cerca de R$ 3,5 milhões, é relativamente baixo para um produto com este porte visual. "Tudo feito aqui, com programas conhecidos como After Effects, 3D max e Maya. Foi trabalhoso, mas valeu a pena", analisa o diretor enquanto abre as pastas de 'passo a passo' em seu computador. E mostra a cena em que a Júlia luta contra os próprios monstros e pesadelos durante um acesso de pânico. (Leia ao lado) O momento, que dura pouco mais que um minuto, levou quatro meses para ser construído. Primeiro, Alessandra teve aulas de manuseio de espadas. Em seguida, foi filmada contra um fundo verde, depois, os personagens e o fundo foram criados. No fim, tudo foi unido em uma única cena. O resultado é surpreendente. E o melhor, convincente.

Tão surpreendente quanto é a cena em que Edgar tem sua cabeça explodida por uma bala. Para criar o efeito 'estilhaço', a equipe filmou Fernando Alves Pinto simulando a reação de tomar um tiro, em seguida, a massa de sua cabeça foi calculada por um programa que também mede a densidade e simula perfeitamente como o 'corpo' reagiria se tomasse um tiro. Aí, em seguida, o programa explode e estilhaça a cabeça. Estudamos muito para realizar esta e todas as outras cenas", conta Poyart, provando que de nerd e cineasta todo mundo tem um pouco. E que o cinema brasileiro mate e crie muito mais coelhos.

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