Dois cantinhos e um violão

Caso típico de voz mais reconhecida nos EUA do que em sua própria terra, Luciana Souza ressurge com dois CDs

Lucia Guimarães , O Estado de S.Paulo

14 Julho 2012 | 03h09

Não é fácil conversar com Luciana Souza e ao mesmo tempo ouvir seu novo CD The Book of Chet, uma visita ao repertório do grande trompetista e cantor Chet Baker. A voz impecável que transformou a clássica Forgetful num lamento hipnótico ("como uma cadeira de balanço," diz) não parece pertencer à mesma artista que fala com urgência e sem hesitação. A mesma artista que achou por bem lançar não um mas dois CDs no próximo dia 28 de agosto. O segundo, Duos III, encerra a celebrada série de violão e voz que deu à paulista radicada em Los Angeles duas de suas quatro indicações para o Grammy.

O lançamento duplo marca a volta de Luciana à gravadora Sunnyside, onde ela se projetou nos Estados Unidos com o Brazilian Duos, em 2002. Na última década, Luciana testou sua definição como jazzista, gravando repertório erudito com orquestras sinfônicas e compondo com o marido e premiado produtor musical Larry Klein, com quem colabora nos novos álbuns. Luciana perdeu o pai, o pioneiro da bossa Walter Santos, em 2008, e a mãe, a poeta e produtora musical Teresa Souza, em 2009. Os dois foram figuras seminais da música instrumental brasileira, à frente do selo Som da Gente, e Luciana reconhece que a sua MPB é a que recebeu dos pais e levou na bagagem quando embarcou ainda adolescente para estudar em Boston. O Duos III traz de volta os incomparáveis Romero Lubambo e Marco Pereira e realiza um sonho de Luciana: gravar com Toninho Horta. "Nós nos conhecemos às 5 da tarde e às 9 da noite já tínhamos gravado Pedra da Lua e Beijo Partido," lembra a musicista, para quem o tempo pode acomodar a torrente de palavras que a repórter mal consegue anotar. Ou pode ser um espaço minimalista onde o som é tão irresistível "que a gente nem se mexe."

Por que você decidiu lançar os dois CDs ao mesmo tempo?

Traço vários paralelos entre o Duos III e o Book of Chet. A ligação mais direta que eu vejo é a do João Gilberto com o Chet Baker. Meu pai lembrava que, em Juazeiro, na Bahia, tocava Chet no coreto. A emoção do Chet existe mas é contida, é a emoção que a gente encontra na bossa nova, tem amor mas não tem dramalhão. É a melancolia e o lirismo, expressivos de uma emoção muito pessoal. Para mim, foi muito fácil gravar os dois CDs juntos. As canções são muito simples, são dois discos de cover. Quem ouve já tem suas referências e eu faço a minha leitura.

Em 2006, você deixou a independente Sunnyside, pela gravadora Universal, onde lançou The New Bossa Nova (2007) e Tide, este indicado para um Grammy em 2010. O que fez você voltar para a gravadora menor, do François Zalacain ?

Nós fomos jantar aqui em Los Angeles, no ano passado. O François foi como um pai para mim e a Sunnyside sempre me faz sentir em casa. Ele perguntou o que eu queria fazer e ele mesmo completou a minha frase: Duos III. Expliquei que queria gravar e lançar o CD do Chet Baker junto mas avisei que já tinha um repertório na cabeça, não queria gravar sucessos como My Funny Valentine. Logo mandei os dois orçamentos e pedi para ele ler com uma taça de vinho na mão. Ele suspirou e disse, vamos em frente. Com o François, é tudo muito claro, não há intermediários.

Como você decidiu o repertório do Duos III e incluiu até uma música que pode surpreender, como Mágoas de Caboclo?

Mágoas do Caboclo para mim era importante, eu ouvia de Orlando Silva quando era pequena e, pouco antes de morrer, meu pai me deu de presente um box set do Orlando Silva. Eu tinha saudade do meu pai e ficava ouvindo. É uma seresta, um gênero que eu não costumo cantar, um pouco na linhagem de outras faixas como Chora Coração, do Jobim, e As Rosas Não Falam, do Cartola. O Larry chegou a perguntar "tem certeza que quer incluir?" É um fraseado que tem ritmo mas não tem groove. A minha MPB é a de quem saiu do Brasil há 27 anos. Não estou numa missão, mas pertenço a esta tradição de voz e violão que continua. Faço mais uma leitura informada por jazz em, por exemplo, Doralice. É o que faz um músico de jazz quando grava um standard. Eu não tenho uma relação forte com o que está sendo lançado agora. A minha música brasileira é marcada pela memória do meus pais, eu fui embora ainda em formação. Meu conhecimento de samba é de quem ouviu o João Gilberto cantar samba. Podem me criticar, dizer que gravo música antiga, mas sei que não sou uma Elis Regina lançando compositores.

Mais uma vez, você escolheu a gravação ao vivo no estúdio para o Duos III. O diálogo voz e violão se presta especialmente a esta forma de gravar?

Sim, há uma transparência absurda. Com o piano você sustenta o som, com o violão não tem isso. O desaparecer do som é mais rápido. Minha forma de cantar mudou muito, eu já consigo sustentar mais notas, como faço em Dindi. Cantar é ar, é coisa abstrata , quando acaba, acabou.

Você já se interessava pelo Chet Baker desde que morava em Boston?

Sim, eu explorei muito o repertório do Chet no começo dos anos 90. Adorava os solos de scat dele, tinham poucas consoantes. O Chet evoca quase um conforto com a solidão e a melancolia. É interessante ocupar este espaço de tristeza, como parte da minha humanidade. Sentar neste canto e dizer, está bem ficar aqui. A tristeza do Chet é muito mais expressiva para mim do que a dor gritada. Ele e o João Gilberto têm esta capacidade de levar você para um lugar da canção, um novo espaço, sem ornamento. É como se os dois aspirassem todo o ar e ficasse só o som deles e você não se desprende até a canção acabar.

Uma faixa que ilustra o que você diz é Forgetful. A impressão que dá é que você está testando a resistência das notas. O resultado é hipnótico.

Sim, acho que estou testando também a paciência de quem ouve! Passamos 3 dias só gravando balada no estúdio, a gente ia reduzindo o metrônomo. O único overdub de bateria foi gravado ao vivo. O Larry dava instruções claras sobre os arranjos. O desafio é contar a história com menos recursos. E o Larry dizia "menos, menos ainda." Em Forgetful, o guitarrista Larry Koonse faz acompanhamento arpegiado, é um ostinato que parece uma cadeira de balanço. E me traz de volta à bossa nova.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.