''Dói um pouquinho, mas só quando eles perfuram''

Sargento Chiquito, da Polícia Militar, indica para o professor Rodrigo Gobi, de 23 anos, a direção da Galeria Prestes Maia. "É ali, ó. O show deles tá sendo muito procurado." Lá dentro, a Virada Cultural recebeu anteontem para sessões de "suspensão corporal".

Cenário: Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

No camarim improvisado, o estudante de história Thiago Soares, de 28 anos, aguarda inteiramente enrolado em papel de seda e filme transparente a hora de entrar em cena e ser içado por seis ganchos de quatro milímetros de diâmetro, enfiados diretamente em suas costas.

"Dói um pouquinho, mas só quando perfuram", diz Soares, que tem 1,81m e veste um escarpin de verniz preto número 40. No caso dele, que integra o grupo musico-performático Diva Muffin, a suspensão acontece no final do show.

Apesar do esforço empreendido, o suplício de Soares não é nem de longe o mais pungente da noite. Tem uma fila de pessoas esperando para voar nos ganchos. É a vez de Luciano Iritsu. Penduram o coitado pela pele puxada acima das omoplatas, como um megabeliscão, e o balançam loucamente. Sua namorada, Janaína, sobe ao palco e se joga nele como se fosse um cipó. Os dois se beijam. "Yeaaaaahhh!", gritam todos.

"Você não sabe a sensação que dá. É muito bom", diz Iritsu, como se estivesse falando de um divertido salto no bungee jump. No momento, ele está deitado em uma maca, de bruços, enquanto passam algodão com antisséptico nos furos ensaguentados.

A melhor atitude quando se conversa com alguém naquela multidão de tatuados, furados e alargados é olhar com a expressão de quem conversa com a vovó vestida com um peignoir, tomando um cafezinho com leite. Não é de bom tom focar diretamente uma testa cheia de teflons implantados, ou um lábio inferior projetado pra frente, como se fosse molde de dentadura. Nem (muito menos) perguntar como se faz para beijar com aquilo.

Cada novo candidato à suspensão supera o anterior. Eder Piecer é levantado por oito ganchos enfiados nas costas e pernas. O sangue escorre.

Encostado em uma parede atrás do palco, o bancário Marcelo Marcondes, de 25 anos, não dá muita atenção ao show: "Se eu gostasse de me pendurar em ganchos, por que eu faria isso em um palco, para todo mundo ver?"

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