Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Doentes de amor na Boate Azul

E pensar que ninguém dava bola para aquela guarânia que se tornaria o hit das churrascarias

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

A jararacuçu não tem senso de humor. Machos cinzas vivem com suas fêmeas amareladas nas matas da América do Sul e buscam sua vítima com um golpe olímpico capaz de atingir até dois metros de distância. Quando grudam os dentes na infeliz, injetam grande quantidade de veneno com uma vontade de quem quer acabar logo com o serviço. O chato foi que, naquele 8 de dezembro de 1951, o alvo era a perna de Vitorio, um menino de 11 anos. A dor foi grande e o tratamento custoso - e ninguém imaginava que dali, um dia, sairia prazer. A jararacuçu que o picou, pensando bem, merecia uma estátua.

Foi com a perna em apuros que Vitorio saiu de sua cidade, Indiana, no interior de São Paulo, e chegou ao Hospital das Clínicas, na capital. Ali sentiu que sua vida seria trilhada na cidade grande. Curado, foi feirante, taxista, motorista de ônibus, casou-se e, com sua mulher, esteve no lugar certo, na hora certa: um restaurante qualquer no qual um jovem cantava um bolerão chamado Boate Azul, que só o cantor parecia conhecer. Vitorio gostou, pegou a letra da música e fez o bolero virar guarânia. Gravou um disco em 1985 com sua versão de Boate Azul e mudou de vida, mas tudo isso já depois de ter virado Joaquim.

Vitorio passou a ser Joaquim em 1976. Seguindo a dica do humorista Murilo de Amorim Correia, que também era produtor da CBS, inventou uma dupla com um estilo diferente, que eles chamavam de lusitano satírico, uma espécie de Roberto Leal em suas vozes e mais escrachado. Ainda sem nome definido, pensava em algo enquanto tomava um café na padaria. Ao olhar para frente, viu os portugueses Joaquim e Manuel servindo seus clientes. Era aquilo, sua dupla levaria o nome dos sócios da padaria. Ele seria Joaquim e seu par, quem quer que fosse, seria o Manuel.

O primeiro Manuel, Roberto Paschoa, morreu aos 37 anos, vítima de complicações de uma cirrose. Joaquim então virou a mesa. Jogou fora o lusitano satírico e investiu em sertanejo, uma música que dava o que falar naqueles meados de anos 80 em São Paulo. O segundo Manuel, Otávio Corrêa, que gravou Boate Azul, deixou a dupla em 1997. Edvaldo Santos, 47 anos, o Manuel terceiro, canta Boate Azul há 16 anos. E ninguém pensa em fechar a tal boate. Joaquim e Manuel, desde que regravaram a canção, em 1985, viraram a "dupla Boate Azul". Uma antiga pesquisa da Sicam, Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais, conta Joaquim, concluiu que Boate Azul era a música mais tocada nas noites do País, sobretudo em churrascarias e karaokês. "Chegamos a repeti-la até três vezes durante um show", conta Joaquim. E agora está tudo certo para o lançamento de um novo disco da dupla, que já passou dos 30 álbuns, com simplesmente três versões do dito estabelecimento: Boate Azul em forma de guarânia, outra em ritmo de samba e uma outra com jeitão de bolero.

Uma das canções mais regravadas por duplas sertanejas, assinada por Benedito Seviero e Tomaz, foi inspirada em uma boate real, "ali da zona sul". "A boate não tinha este nome, virou Boate Azul na música", diz Joaquim.

Já que tudo que deu certo a ele veio escrito em forma de garrancho, com Boate Azul não foi diferente. Assim que a fez virar guarânia, antes de lançá-la em disco, gravou a música em um estúdio e levou a fita para um aval de Benedito Seviero, o autor da canção. Benedito não gostou nada. "Você não vai fazer sucesso com isso nunca", disse, e lhe deu as costas. Crente de que estava no caminho, fez então a gravação chegar ao radialista totem de todos os sertanejos, Zé Bettio, a maior audiência do gênero por décadas. E aí veio a segunda maldição. "Faço um programa família, não vou tocar música que fala de boate nunca." O tempo fez seu trabalho, o público ligou pedindo, e Boate Azul virou hino. Joaquim e Manuel fazem de oito a dez shows por mês. Ninguém ficou rico, mas uma boa parte da história sertaneja, Joaquim acredita ter escrito.

BOATE AZUL

Benedito Seviero e Tomaz

Doente de amor, procurei

remédio na vida noturna

Com a flor da noite em uma boate aqui na zona sul

A dor do amor é com outro amor que a gente cura

Vim curar a dor desse mal de amor na boate azul

E quando a noite vai se agonizando no clarão da aurora

Os integrantes da vida noturna

se foram dormir

E a dama da noite que estava

comigo também foi embora

Fecharam se as portas,

sozinho de novo tive que sair

Sair de que jeito, se nem sei

o rumo para onde vou

Muito vagamente me lembro

que estou em uma boate

aqui na zona sul

Eu bebi demais e não consigo

me lembrar sequer

Qual é o nome daquela mulher

a flor da noite na Boate Azul

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.