Doença, culpa e vingança divina

Em Nemesis, Philip Roth recorre ao trágico para falar da necessidade de harmonia

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Antes da descoberta da vacina contra a poliomielite, Nemesis, de Philip Roth, arma sua trama em torno da incidência do vírus entre as crianças judias da cidade de Newark, em 1944. Por esse viés, ele se aproxima do Diário do Ano da Peste (1722), de Daniel Defoe, que descreve em estilo realista a praga que assola Londres a partir de 1665. Aproxima-se também do romance A Peste (1947), de Albert Camus, que narra de maneira ficcional o destino dos aprisionados pela epidemia bubônica em Orã, na Argélia. Acrescente-se que a trilogia diz algo sobre as pandemias que nos afligem hoje.

Roth buscou autonomia dentro do intimidante quadro artístico. As comparações indicadas acima, parasitárias da história social, são extrapoladas por alusões à mitologia grega e ao Velho Testamento. Ao nomear a deusa da vingança, o título do romance esclarece a necessidade do imperativo trágico para que respeito mútuo, harmonia e amor voltem a reinar.

A vertente mítica de Nemesis lembra a figura do padre jesuíta Paneloux, de A Peste, às turras com o médico, Dr. Rieux. Em dois sermões, o padre justifica a epidemia como expressão da vingança de Deus frente ao estado de pecado. Se o religioso busca a cura pela salvação da alma, o médico, a cura pela saúde do corpo. Em contradição com a vocação religiosa de Nemesis, seu personagem principal, Bucky Cantor, é o consciencioso diretor do playground no bairro judio, onde as crianças praticam esporte. No entanto, fora ele o portador saudável ("healthy infected carrier") do vírus.

Nemesis revira pelo avesso a oposição entre salvação e saúde. No sacrifício dos inocentes, Deus contou com o auxílio de um ser humano que deveria tê-los salvado. A originalidade temática se enriquece com uma pirueta retórica. Roth entrega o ato de narrar a epidemia ao judeu ateu Arnie Mesnikoff que, ainda menino, fora contaminado com o vírus de pólio no playground.

No capítulo final, Reunião, Arnie (narrador) e Bucky (protagonista), já velhos e cadeirantes, dialogam sobre culpa, inocência, acaso, doença e vingança divina. De modo menos evidente, a longa conversa remete o romance à questão da culpabilidade inocente, dramatizada na peça Édipo, de Sófocles, e ao tema da in/consciência no mal, poetizado por Charles Baudelaire.

SILVIANO SANTIAGO, ESCRITOR E ENSAÍSTA, É AUTOR DE ANÔNIMOS(ROCCO) E COLUNISTA DO SABÁTICO

NEMESIS

Autor: Philip Roth

Editora: Jonathan Cape

(Importado, 304 págs., R$ 55)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.