Juan Guerra/AE
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Dody, empresário do rei

Conheça o gaúcho que, há 18 anos, coordena os passos do soberano da canção

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2010 | 00h00

Há 18 anos, somente um homem tem permissão para entrar e sair da sala do trono sem pedir licença. É o empresário do "rei" Roberto Carlos, o gaúcho Dody Sirena, da empresa DC Set, quem marca e remarca seus shows, organiza turnês, negocia seus contratos. Gaúcho de Caxias do Sul, descendente de italiano com passaporte europeu, ele e o sócio, Chicão Chies, fundaram sua empresa de eventos e promoção no Rio Grande do Sul em 1979. Hoje, ela possui escritórios em São Paulo, Porto Alegre, Salvador e representação na Espanha.

Gremista roxo, Dody é, além de tudo, um fã do Rei. Suas canções preferidas no repertório do cantor são Além do Horizonte e Amigo (invejosos, estremecei: Roberto Carlos cantou Amigo exclusivamente para Dody no aniversário deste, em 2007). Em 2009, Dody estava ao lado do Rei no jatinho que sobrevoava Cachoeiro do Itapemirim, cidade natal do cantor, à qual ele voltava após 14 anos de ausência - e Roberto, emocionado, apontava aqui e ali os pontos onde viveu as aventuras de sua infância.

A confiança tem também suas tarefas ingratas: foi a Dody que o médico Milton Kazuo Yoshino deu a missão, em abril deste ano, de informar Roberto, ao fim do show no Radio City Music Hall (por volta das 23h30), em Nova York, que sua mãe, Lady Laura, tinha acabado de morrer no Rio, no Hospital Copa D"Or. Roberto não voltou para o bis.

Ativo no Twitter, Dody postou esta semana: "Ídolos mudam a sua vida. Lendas mudam a história." O gaúcho sabe do que está falando: além da extensa turnê dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos, foi também associado de Luiz Oscar Niemeyer, da Planmusic, na bem-sucedida turnê recente de Paul McCartney (só no Brasil, o ex-beatle foi visto por 178 mil pessoas). Dody organizou o show de Paul no Beira-Rio, em Porto Alegre, estádio do Internacional - curiosamente, time adversário do seu.

"Roberto Carlos não busca bater recordes. Nós temos uma meta de 40 a 50 shows por ano, mas temos uma procura de mais de 300, principalmente agora que ele retomou os shows internacionais", conta Dody. "Há 5 anos recebemos insistentes convites para a África, a última vez que estivemos foi em Angola há uns 10 anos e continuam nos convidando, espero poder voltar. Este ano fizemos 25 shows em 10 países. Em São Paulo poderíamos fazer uma temporada de dois meses, mas optamos por uma turnê pela própria cidade para dar mais oportunidade aos que querem ver o Roberto. E na verdade não conseguimos atender a todos os pedidos", lamentou.

Dody aconselha o cantor até em temas espinhosos, como a reforma na lei dos direitos autorais - foi ele quem se incumbiu de transmitir à imprensa que Roberto é contrário ao projeto do governo. Mas o executivo já viveu tempos menos incisivos como empresário do cantor. Após a morte da mulher, Maria Rita, em 1999, Roberto ficou quase dois anos sem cantar. Recolheu-se e passou por um período difícil. Dody segurou o rojão. Agora, numa fase mais solta e arrojada, Roberto vem topando quase tudo - o show na praia, de graça, para os súditos que não podem pagar aquele preço salgadinho dos ginásios, é uma grande novidade.

"Nos seus 50 anos de música, Roberto Carlos vem demonstrando que continua à frente do seu tempo, aceitando cada vez mais desafios. Vencendo barreiras. Ele se sente confortável em relação a algumas propostas, como foi o caso do show de Natal no Rio de Janeiro", analisa Dody. "É o 34.º especial de fim de ano da Globo, e o primeiro ao vivo. Às vezes me surpreendo quando imagino que ele pode não querer e o vejo entusiasmado. Ele confia na estrutura que tem para trabalhar, isso é fundamental para aceitar o novo. A Riotur fala em reunir 1 milhão de pessoas, a metade nos deixaria felizes. Mas ficamos entusiasmados ao ver que em menos de dois anos ele fez dois shows transmitidos ao vivo pela TV, ou seja, está tão bem que vai surpreender ainda mais com os novos projetos para 2011."

A carreira de promotor de shows de Dody Sirena é eclética. Em outros tempos, já trouxe Julio Iglesias e também o mágico David Copperfield. Atualmente, Dody só cuida dos contratos do humorista Tom Cavalcanti - um dos melhores imitadores de Roberto Carlos. Dedica-se quase integralmente ao astro-rei - foi ele quem inventou os "cruzeiros cantantes", a turnê Roberto Carlos em alto-mar, que lota navios gigantescos ano após ano.

Durante viagem recente à Europa, Dody anotou uma frase que alguém lhe disse e considerou interessante. "Capitalismo é a forma injusta de distribuir a riqueza, comunismo é forma injusta de distribuir a pobreza." Um capitalista dos mais bem-sucedidos do show biz, ele vê bom caminho à frente para continuar acumulando riqueza. "Uma coisa que Dody sabe é fazer dinheiro", diz um antigo colaborador do executivo.

Sol. "O Brasil está passando por um momento extraordinário, o câmbio é favorável, e profissionalmente já provamos que estamos tão preparados quanto os grandes países, e a nossa posição geográfica estimula os artistas a um roteiro mundial", pondera o empresário. "Temos sol quando eles estão no frio. Estamos nesse mercado há mais de 30 anos, quando ainda não havia essas facilidades e nós já tínhamos entendidos que viabilizar parcerias é o grande negócio. Nos anos 90, fizemos parceria com o Luiz Oscar Niemeyer para fazer shows do Eric Clapton e Bob Dylan. É extremamente saudável que empresas bem estruturadas se aliem a outras do mesmo porte para operações de alto risco, como são os grandes shows. Não vemos outros produtores como concorrentes. Fazemos negócios com a T4F, com o Phil Rodrigues e com todos os bons do mercado. Podemos sim, em 2011, estar de novo atuando tanto como parceiros como também à frente de contratações internacionais, mas não é este o nosso principal foco."

Dody desenvolveu pessoalmente a estratégia de comemoração dos 50 anos de Roberto Carlos. Colocou na estrada uma equipe com mais de 50 pessoas e 3 carretas contendo equipamentos, cruzando todo o País. Foram realizados 46 shows, e ainda 23 no exterior. Produziu dois shows especiais (Elas Cantam Roberto Carlos, no Teatro Municipal, e Emoções Sertanejas, no Ginásio do Ibirapuera; também articulou o espetáculo no Estádio do Maracanã, visto por 70 mil pessoas. E fez a mostra Roberto Carlos 50 anos de Música na Oca (Parque do Ibirapuera, São Paulo) com mais de 100 mil visitantes.

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