Documentos de ferrovia paulista vão para o Rio

O acervo de documentos da antiga ferrovia São Paulo Railway Company, a SPR, conhecida como Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (EFSJ), será transferido para o Arquivo Nacional, no Rio, assim que todo o material estiver catalogado. A informação foi confirmada pela liquidante da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), Anália Martins. Pesquisadores e antigos funcionários da EFSJ acreditam que com essa medida São Paulo perde sua memória ferroviária para a capital fluminense. Anália diz que essa preocupação é apenas "emocional".A EFSJ foi inaugurada em 1867 por empreendedores ingleses, com o nome de SPR. Em 1946, ela recebeu a denominação de EFSJ e, em 1957, passou a integrar a RFFSA. Em 1996, num processo de privatização, a parte operacional da ferrovia ficou com a concessionária MRS Logística S.A. Até que o decreto 3.277, de 7 de dezembro de 1999, determinou a dissolução da RFFSA.Anália explica que a transferência do acervo da EFSJ para o Arquivo Nacional é uma determinação da Lei 8.159, de 8 de janeiro de 1991. Em seu artigo 7.º, essa lei estabelece que os acervos de empresas dissolvidas têm de ser destinados ao Arquivo Nacional. Por isso, acrescenta, não é só o acervo da EFSJ que vai para o Rio, mas também o de todas as unidades da RFFSA no País. "É uma questão legal."Segundo ela, a transferência dos acervos incluirá tudo o que é de papel: mapas, plantas, cartões de ponto, holerites, notas fiscais, contratos e documentos administrativos. Como possibilidade, ela não descarta a hipótese de o acervo ficar em São Paulo, mas deixa claro que a decisão ficará a cargo do Arquivo Nacional.A presidente da Sociedade de Preservação e Resgate de Paranapiacaba, Zélia Maria Paralego, classifica como "péssima" a transferência dos documentos, com a justificativa de que "a história tem de permanecer onde ela ocorreu".O maquinista aposentado Laércio Amorim, de 53 anos, que mora em Paranapiacaba e trabalhou 25 anos na EFSJ, também lamenta a transferência do acervo. "Indo (o acervo) para o Rio de Janeiro, a memória da ferrovia fica incompleta." Um pesquisador da história ferroviária paulista, que prefere não se identificar, endossa as opiniões de Zélia e Amorim.Estação - Na Estação da Luz, no interior de uma sala de 72 metros quadrados, há 61 mapotecas (armários onde se guardam documentos) com papéis que registram momentos da história da EFSS, desde a origem da ferrovia, no século 19. Todo o acervo contém de 3 mil a 4 mil documentos que ainda são utilizados, segundo o engenheiro da RFFSA, Antonio Sesma. Parte desse acervo é o que sobrou de um incêndio ocorrido em 1946, quando os ingleses deixaram a ferrovia.Como exemplo da importância dos documentos para pesquisa e trabalho dos engenheiros da RFFSA, Sesma mostra uma escritura de 1862 de uma área adquirida pelos ingleses para a construção da ferrovia. Um desenho com a planta de um galpão da ferrovia em Santos. Outros documentos são contratos de permissão de uso para empresas e municípios que ocupavam os limites da estrada de ferro para construir pontilhões ou estender cabos.O chefe do Escritório da RFFSA em São Paulo, Airton Franco Santiago, acredita que a transferência da documentação terá de passar por uma triagem.

Agencia Estado,

25 de novembro de 2000 | 21h47

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