Documentarista Eduardo Coutinho vai às finais do Prêmio Multicultural

Em março, Eduardo Coutinho teve de vir correndo a São Paulo para receber o prêmio que Santo Forte recebeu do Sesc como melhor filme brasileiro do ano passado. Se pudesse, Coutinho teria ficado na cidade para receber, no dia seguinte, o prêmio que a Associação Paulista dos Críticos de Arte, a APCA, também deu a Santo Forte como melhor filme do ano passado. O reconhecimento a Santo Forte não pára por aí. Ainda em março, Coutinho esteve em Paris para mostrar seu documentário sobre religiosidade popular no Brasil no Beaubourg, onde Santo Forte integrou a programação do Festival du Réel. E agora ele é finalista ao Prêmio Multicultural 2000 Estadão Cultura, na categoria de criador. Reconhecimentos não têm faltado para Coutinho. Há uma unanimidade de que ele é o maior documentarista do Brasil. Toda unanimidade é burra, dizia Nélson Rodrigues. Não a que aponta para a excelência do trabalho de Coutinho. Na sede do Cecip, no centro do Rio, mais exatamente no Largo de São Francisco, ele recebe a reportagem da Agência Estado para falar sobre sua atividade cinematográfica. O local é importante. O Centro de Criação da Imagem Popular é a casa de Coutinho. No verso do cartão que ele dá ao repórter, está a melhor definição do que é o Cecip - uma organização da sociedade civil que produz vídeos e publicações de caráter educativo e desenvolve atividades de captação, baseadas na metodologia Planejamento para a Ação, em educação por meio da comunicação. Desfronteirização - Quem acompanha a série de reportagens sobre o Prêmio Multicultural 2000 Estadão Cultura sabe qual é o conceito do prêmio. Vale lembrá-lo. Ele reconhece a desfronteirização de áreas artísticas como um dos mais fortes aspectos da cultura contemporânea e busca apontar os autores e fomentadores antenados no que se faz de mais relevante na cultura do País, na atualidade. Para o prêmio deste ano foram destacados 14 - quatro dos quais serão escolhidos por um colégio eleitoral de 5 mil pessoas. Foi longo o caminho que trouxe Coutinho até o estágio atual. Seus primeiros filmes foram experiências ficcionais - O Homem Que Comprou o Mundo, de 1968, e Faustão, de 1971. Se não se pode dizer que tenham sido fracassos absolutos, também há que reconhecer que nenhum fez sucesso. Coutinho foi mais bem-sucedido com os roteiros que escreveu para A Falecida, de Leon Hirszman, Lição de Amor, de Eduardo Escorel, e Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto. E então, no começo dos anos 80, ocorreu o fenômeno Cabra Marcado para Morrer. Para contar a história da gênese dessa obra-prima, o maior documentário brasileiro de todos os tempos, segundo pesquisa realizada pelo Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, é preciso voltar ao passado, aos anos 60. Coutinho rodava, no interior de Pernambuco, uma ficção sobre as lideranças camponesas da época, quando sobreveio o golpe militar de 1964. A história baseava-se na figura de João Pedro Teixeira, fundador e líder da Liga Camponesa de Sapé, na Paraíba, assassinado pela Polícia Militar, dois anos antes. Tudo começou quando Coutinho viajou por todo o País com uma caravana de jovens da União Nacional dos Estudantes, a famosa UNE, para preparar um documentário sobre a realidade brasileira. Foi durante a excursão que ele filmou, em Sapé, um comício de protesto contra o assassinato de Teixeira, do qual participavam a viúva, Elizabeth, e seus filhos. A cena do comício acabou sendo a única realmente boa do tal documentário e despertou em Coutinho o desejo de fazer outro filme, agora sobre a vida de Teixeira. Liga camponesa - Em janeiro de 1964, ele estava de volta a Sapé com um roteiro e a idéia de utilizar Elizabeth no próprio papel, com os camponeses da região interpretando as demais personagens. Seria uma ficção, mas não é improvável que Coutinho quisesse trazer, para o cinema brasileiro da época, um pouco da experiência do italiano Francesco Rosi, que havia provocado grande impacto com o filme que havia feito pouco antes, O Bandido Giuliano. A chegada de Coutinho a Sapé coincidiou com um conflito entre camponeses e policiais. Houve mortos e feridos. As filmagens foram transferidas para o engenho Galiléia, em Pernambuco, mas essa também não era uma área segura. Foi ali, a 50 quilômetros do Recife, que nasceu, em 1955 a primeira liga camponesa do País. Teixeira era representado por João Mariana Santana da Silva, o único ator do filme que não havia participado do movimento camponês. As filmagens corriam normalmente. Haviam sido rodados cerca de 60% do material até a fatídica madrugada de 31 de março de 1964. Com o golpe, Galiléia foi cercada pelo Exército e as filmagens, brutalmente interrompidas. Uma versão fantasiosa publicada pelo Diário de Pernambuco em 7 de abril daquele ano diz que foram apreendidos os equipamentos do filme e perseguidos os cubanos que faziam subversão na região. Coutinho, Elizabeth e seus filhos tiveram de fugir. Coutinho chegou a ser preso pela ditadura. Solto, voltou ao Rio, onde retomou a carreira no cinema e, depois, foi para a TV, para fazer o Globo Repórter, base do seu trabalho como documentarista. No começo dos anos 80, ele teve a sacada de gênio, que mudou sua vida e a concepção de cinema. Retomou o projeto de Cabra Marcado para Morrer, não mais em chave ficcional, mas somando às imagens que haviam restado do projeto original as que pretendia filmar, mostrando o que havia acontecido com Elizabeth e sua família. O resultado foi o documentário vencedor do prêmio Tucano de Ouro, no Festival Internacional do Rio, aplaudido de pé quando foi exibido em outro festival, o de Berlim. Cabra Marcado para Morrer referendou o grande documentarista que Coutinho, indiscutivelmente, é. Vieram depois O Fio da Memória e o documentário sobre o morro Santa Marta - que um entusiasta, Cacá Diegues, considera ter sido fundamental para que ele fizesse Orfeu. Falando sobre negros favelados, Coutinho colocou nas telas o Brasil dos excluídos. Agora mesmo, conclui outro documentário, que começou no réveillon, sobre favelados de outro morro do Rio. Gravou os depoimentos dos personagens na virada do ano, pretendia reencontrá-los, para nova rodada de depoimentos, em plena comemoração da Semana Santa. Palavra - Ele gosta de voltar sua câmera para as classes operárias, mas chega a surpreender, dizendo que não atura o cinema engajado. Mas como não é engajado? O cinema de Coutinho transborda política. Seu engajamento é com o humano, a melhoria social. E ele sempre consegue criar imagens esplendorosas que definem o que é o Brasil. Em O Fio da Memória, começa com as fotos de escravos. Belas, melancólicas e chocantes. Chega à magnífica seqüência no Brasil dos anos 80, quando policiais militares escoltam sete negros presos uns aos outros pelo pescoço, do mesmo jeito como os escravos apareciam no século passado. Só sendo cego para não perceber o que ele quer dizer. Em Santo Forte, há outra cena grandiosa - a entrevista com a favelada que diz que deve ter sido nobre em outra encarnação. De que outra forma explicar como e por que ela gosta tanto da música de Beethoven? A mulher olha para a câmera, conversa descontraída, ri. É uma das grandes personagens anônimas da história do cinema brasileiro. Eduardo Coutinho possui, como poucos, o segredo dessas seqüências. "Seria incapaz de entrevistar um torturador", ele confessa. Não se preocupa com essa história de que cinema é imagem. Os filmes dele têm como centro a palavra. E ele possui regras das quais não abre mão. Sempre paga a quem fala para sua câmera. Não conversa com os personagens antes de filmar, não costuma marcar hora nem preparar sets ("Gosto de ser surpreendido", diz). Acha que a maior duração das fitas de vídeo tem, como vantagem, o fato de permitir captar os depoimentos em toda a sua espontaneidade. Não costuma usar câmeras indiscretas nem armadilhas para flagrar pessoas desavisadas. Acha isso desonesto. "Respeito as pessoas e não quero criar problemas para elas", diz. E também não lhes pede que façam isso ou aquilo diante de sua câmera. Tudo é sempre claro, transparente - democrático. Seu ideal, ainda não atingido, seria chegar ao máximo de síntese fazendo, com uma só família, um filme sobre o Brasil. Além do troféu criado pela artista plástica Lina Kin - uma superfície curvilínea e espelhada, com o objetivo de levar os artistas a se debruçar sobre suas obras e a própria imagem -, o prêmio também dá um valor em dinheiro. Os R$ 30 mil seriam valiosos para que Coutinho realizasse mais uma de suas obras-primas documentárias.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.