Documentário vai narrar trajetória de Henfil

Herbert de Souza, o Betinho, disse certa vez que seu irmão Henfil era um caso nítido de relação entre mente e sangue. Seu estilo corrosivo, politicamente incorreto, denunciador e, acima de tudo, genial decorria em grande parte à condição de hemofílico, que sempre reforçou seu apego às coisas simples da vida e sua generosidade. Essa simbiose entre a doença e a grandeza da obra do cartunista é um dos focos do próximo documentário da produtora carioca Scriptorium, de Marisa Furtado e Paulo Serran, o terceiro da série Profissão Cartunista, que já teve como tema os norte-americanos Will Eisner e Jerry Robinson, este último ainda em finalização. Henfil, Profissão Cartunista é o primeiro filme da série sobre um artista brasileiro. Marisa conta que pensara ainda em Maurício de Sousa e Ziraldo, mas a vida atribulada dos dois fatalmente impediria a dedicação necessária ao projeto. "Nós mergulhamos na vida dos cartunistas, fazemos longas entrevistas e é preciso tempo para isso", argumenta a produtora. Quando decidia que artista seria tema do documentário, Marisa leu uma matéria num jornal, na qual Ivan, filho de Henfil, contava suas dificuldades para preservar o acervo de aproximadamente 15 mil originais do pai guardados em sua casa. "Como sou fã do Henfil, fui à Feira Hype (mercado alternativo localizado no Jóquei do Rio), onde o Ivan organiza uma mostra permanente com os trabalhos do pai, me apresentei e o levei para conhecer a produtora", lembra Marisa. "Ele foi totalmente receptivo." Outro filme - Este ano, foi lançado outro filme sobre o cartunista, Cartas da Mãe, de Marina Willer e Fernando Kinas, que enfoca especificamente os trabalhos de Henfil publicados na revista Isto É na década de 70, contendo críticas aos militares camufladas no texto aparentemente inocente e sutil. O documentário da Scriptorium extrapola a faceta combativa de Henfil, abrangendo toda a sua vida. Por meio de depoimentos de amigos e familiares, a produção pretende reconstruir a trajetória do criador da Graúna, do bode Orelana, do cangaceiro Zeferino, dos Fradinhos e tantos outros que integram o inesquecível imaginário do cartunista. "É importante mostrar às novas gerações um artista fundamental que marcou uma época e foi um ponta-de-lança no combate ao militarismo", afirma Marisa. "Ele não foi apenas um cartunista brasileiro, mas um cartunista que retratou o Brasil." O filme vai relembrar também o Henfil gozador, cujas declarações sempre transitavam entre o sério e o deboche. Avesso à mesmice, ele freqüentemente "tirava um sarro" com seus interlocutores. "Ele dizia que odiava repetir as coisas; certa vez, falou que foi embalador de queijo", diverte-se Marisa. O próprio Ivan garantiu à produtora que o pai nunca trabalhou com queijo algum. O filme terá nas entrevistas e depoimentos seu principal suporte. Nos documentários anteriores, os artistas homenageados puderam dar entrevistas, o que, por razões óbvias, não poderá ocorrer no filme sobre Henfil. Para compensar, Marisa pretende resgatar imagens de arquivo do artistas e de pessoas próximas. Alguns depoimentos são emocionantes, como o dos irmãos Betinho - adorado por Henfil e uma de suas grandes fontes de inspiração - e Francisco Mário. A união entre os três foi refletida até na causa de suas mortes, provocadas pela aids. Catalogação - Para Ivan, o interesse da Scriptorium em homenagear seu pai é um alento, já que pode ser uma oportunidade de divulgar a obra de Henfil, abrindo as portas para um eventual apoio para a catalogação do acervo. "Esse espaço na Feira Hype foi a única ajuda que recebi para divulgar o trabalho de meu pai", conta Ivan. "Quem vai ganhar mais com esse projeto é a obra dele." Outra riquíssima fonte de referência são as publicações onde o cartunista trabalhou (entre elas o Estado), a música (principalmente O Bêbado e o Equilibrista, de Aldir Blanc), o teatro (a peça Revista do Henfil, em parceria com Oswaldo Mendes), o cinema (o filme Tanga - Deu no New York Times) e a TV (ele participou do programa TV Mulher). Para que esse acervo audiovisual seja materializado, a Scriptorium está em busca de parceiros para a produção, orçada em R$ 450 mil. Na realidade, o valor total é de R$ 500 mil, mas a produtora garante os R$ 50 mil iniciais para a primeira fase da pesquisa. "Acredito que tudo esteja pronto em cerca de 14 meses, mas tudo depende do patrocínio", prevê Marisa. Ivan estima que o pai tenha produzido aproximadamente 20 mil originais. Ou seja: cerca de 5 mil estão perdidos por aí, em arquivos de revistas, jornais e sindicatos (para onde o cartunista colaborava assiduamente). "Ele era muito generoso e dava os desenhos para as pessoas; vamos tentar garimpar esse material", diz Marisa. "Uma vez ele ameaçou não fazer um desenho quando uma partido político ameaçou pagá-lo; dizia que essa era sua colaboração", completa Ivan. Atualmente, a Scriptorium finaliza o documentário sobre o americano Jerry Robinson, o criador de personagens clássicos como Coringa, Mulher-Gato e Robin, entre outros. O piloto do filme está pronto e vai estrear dia 4, na S-TV (Rede Sesc-Senac de Televisão). É uma excelente oportunidade para conferir a qualidade do trabalho da Scriptorium. O contato com a Scriptorium pode ser feito pelo telefone (0- -21) 556-9256 ou pelo e-mail pserran@uol.com.br, com Marisa Furtado ou Paulo Serran.

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