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Documentário sobre Brennand é destaque na Mostra de Cinema

Os diários do artista plástico serviram de base para filme que mistura ficção e realidade

CAMILA MOLINA - O Estado de S.Paulo,

17 Outubro 2012 | 03h11

RECIFE - Francisco Brennand passa todos os seus dias na antiga fábrica de cerâmica herdada de seu pai, no bairro da Várzea do Capibaribe do Recife. O local foi transformado por ele, desde 1971, em sua oficina; mais do que isso, em um templo para sua arte. Esculturas de abutres, seus Pássaros Rocca, formam uma grande fileira de sentinelas no alto da cidadela do artista - abaixo deles, mulheres, homens e animais feitos em cerâmica, sempre a partir de uma raiz fálica, sexualizada e mitológica, povoam toda a área da Oficina Brennand. Há ainda ovos esculpidos pelo chão; um galpão chamado "Accademia", dedicado às pinturas; excertos literários de Borges, Carlo Levi e de Eclesiastes transcritos em painéis de cerâmica; imagens de santos e símbolos de Oxossi; fornos, fontes e um lago; cisnes negros selvagens perambulando por jardins projetados pelo paisagista Burle Marx. "Isso parece o Egito", disse um taxista a Brennand, anos atrás. "Senti que ele estava à procura de um equivalente da palavra mistério", conta o artista, que naquela época ainda estava no meio do processo de transformar as ruínas da Cerâmica São João em seu "projeto sem volta", sua obra de vida.

Um dos principais artistas brasileiros, com carreira iniciada na década de 1940, Brennand, aos 85 anos, é um homem recluso, de barba longa e branca. "Envelheci aqui. Tinha um quarto em cima, em que dormi durante muito tempo, e um dia eu desci e já era um velho. Mas a minha conversa não é a conversa de um solitário. Um solitário, em geral, se desabitua a falar, e eu gosto de falar, um amigo dizia que é um mal incurável", brinca Brennand, que recebeu o Estado em seu ateliê na semana passada, para uma longa conversa de quatro horas.

Figura complexa, criador ultraculto e polêmico, católico apostólico romano, cinéfilo que já escreveu sobre Antonioni e outros cineastas, construtor de um museu a céu aberto que se tornou um dos espaços mais particulares do País, o pintor e escultor é o tema do documentário Francisco Brennand, destaque da 36.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que será aberta nesta quinta-feira, 18, para convidados. O filme, dirigido pela sobrinha-neta do artista, Mariana Brennand Fortes, estreia no sábado, em sessão às 19 horas na Cinemateca Brasileira.

Brennand abriu seus diários, escritos desde 1949, para a sobrinha-cineasta e possibilitou, assim, que Mariana construísse um documentário com ares híbridos, até ficcionais, como a narração de um sonho cinematográfico. Por meio de belas imagens (a fotografia é assinada por Walter Carvalho) e pela voz do artista - por suas falas ou pela criação de uma narrativa a partir de sua escrita íntima - abre-se uma janela para que o público possa adentrar nos mistérios e trabalhos do universo de Brennand. "Quando comecei a reforma disso (da fábrica Cerâmica São João em ruínas), minha única preocupação era não deixar o mistério sair daqui", diz ele.

A Oficina Brennand, com seu imponente Grande Pátio do Templo ao Ovo Primordial, criado entre 1979 e 1989 na entrada da fábrica, recebeu, somente em 2012, cerca de 18 mil visitantes (o ingresso custa R$ 10). O museu é como um refúgio aberto, como mostra a passagem inicial do filme. Nela, Brennand vai ao marco zero do Recife, no cais do porto, onde estão abrigadas algumas de suas esculturas, algumas monumentais - mas deixa suas obras entre os estrondos do mar para voltar correndo à sua fábrica. Uma estrada construída depois da cheia do rio em 1975, entre uma mata plantada numa terra de canaviais, o leva - e nos leva - como um "túnel verde" e com "auréola de magia" àquele lugar da arte do pintor e escultor. "Mariana tirou partido disso, quando saio do marco zero, me refugio aqui."

Emblemas. De volta a seu estúdio, Brennand diz ao Estado não ligar para temas como o julgamento do mensalão. Mas, nas horas de conversa, revela-se informado sobre qualquer tipo de assunto, como mostra a defesa que faz do presidente americano Barack Obama. De forma descontraída, afirma que sempre foi considerado um reacionário para os de esquerda - e lembra que nos anos 1960 foi convidado por Miguel Arraes para participar em Pernambuco de um projeto de cunho social , que não vingou. O escritor Ariano Suassuna, fundador do Movimento Armorial, sempre foi um amigo próximo, mas Brennand rejeita o que seria uma vertente de brasilidade popular em sua obra. Suas fontes são a antiguidade, a literatura, a mitologia arcaica. "A obra de arte é em parte um artifício e tem outra parte que nós desconhecemos. Desde a pré-história, o homem tinha que produzir e se reproduzir; a reprodução é o equivalente da imortalidade e esse é um dos temas da minha arte", define. "O ovo é um emblema da imortalidade. As coisas se reproduzem a partir do ovo, o universo e a natureza se reproduzem, tudo é como se fosse a história de um imenso desejo", completa, chamando a atenção para o caráter sexualizado de sua produção.

Entre mistérios e desejos, pinturas que muitas vezes retratam mulheres que posaram para ele em um beco contruído na Oficina - e até as figuras femininas mitológicas e trágicas falam de paixões e infortúnios -, Brennand, de alguma maneira, sente-se só. "Falo no filme, eu não era visitado por ninguém, meu pai vinha aqui esporadicamente e à procura de ver o que eu estava fazendo, encantado, mas sem dizer nada do que estava sentindo, porque a geração dele tinha um pudor dos sentimentos. Recife estava se lixando para o que eu estava fazendo. Era como se eu tivesse morrido, não aparecia, não fazia exposições, e quem se faz de morto é enterrado."

No documentário, Brennand trabalha, vai de bengala verificar o timbre de suas peças recém-saídas dos fornos. Mas ele tem um pesadelo, o de amanhecer submerso numa "cidade anfíbia" e de ter seu lado pintor esquecido em um pequeno obituário de jornal. Sua primeira e última retrospectiva em instituição brasileira ocorreu em 1998, na Pinacoteca do Estado, e em seu templo na Várzea do Capibaribe predominam centenas de formas escultóricas, mas o artista, que destaca como grandes criadores os pintores Gauguin, Cézanne, Van Gogh, Coubert e Balthus, afirma que até a cerâmica, ofício herdado do pai, é um meio pictórico.

E há o medo de que sua cidadela possa ser invadida como Pernambuco foi pelos holandeses - daí os abutres-sentinelas cercam seu templo e ele criou, entre 1961 e 1962, o painel da Batalha dos Guararapes - ou possa ser desmembrada e destruída depois de sua morte. Segundo o artista, sua filha mais velha, Maria da Conceição, está a frente do projeto que transforma a Oficina em um instituto. Já Mariana, que trabalha com o tio-avô desde 2002 e fez a catalogação de sua obra, também batalha para lançar, no próximo ano, três volumes dos diários do artista - um deles, escrito desde 2007, com tom ficcional, no qual ele solta sua língua sobre temas como política e problemas ambientais. "Aos poucos, fui criando aqui uma mitologia pessoal que hoje só serve a mim", diz Brennand. Não, não é verdade.

FRANCISCO BRENNAND

Cinemateca. Sábado, 19 h

Espaço Itaú de Cinema. Domingo, 17h20

Cine Livraria Cultura. Dia 30, 16 h.

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