Documentário revela corpo e alma de SP

A "TV Cultura" exibe amanhã, às21 horas, o documentário São Paulo, Corpo & Alma, realizadopela Associação Cultural Cachuera! com apoio da Secretaria deEstado da Cultura. Trata-se do piloto de uma série que pretende,em 30 programas de meia hora cada um, mapear as manifestações dacultura popular do Estado. Inspira-se, o projeto, num similar, realizado peloInstituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), quevisitou todos os municípios baianos e registrou, som e imagem,todas as festas populares de lá, na série Bahia, Singular ePlural. Premiado pelo Iphan, no ano passado, o projeto baianojá editou 18 fitas de vídeo (que a "TV Cultura" apresenta, noprograma Doc.Brasil) e está para lançar sétimo e o oitavoCDs, frutos de um trabalho de levantamento que teve início em1997. O programa que vai ser exibido amanhã estará à venda,num pacote que inclui CD e DVD, encartados num livro com 65páginas de fotos e textos explicativos e transcrições deentrevistas, dentro de dois meses, com distribuição da própriafundação Cachuera!. O pacote deverá custar entre R$ 40,00 e R$50,00. Riquíssima, a cultura popular - a cultura caipira - deSão Paulo foi sempre rigorosamente abandonada, ignorada,menosprezada pelo poder público, pelos estudiosos, pelainiciativa privada - nunca se moveu uma palha pela divulgação epreservação dessa expressões peculiares, de sotaque próprio etradição centenária. Nem mesmo Mário de Andrade, de obra tão importante parao conhecimento e entendimento da diversidade cultural brasileira deu muita bola para a cultura de sua terra natal. Mário viajoupara o Norte e o Nordeste. Pouco mais que nada olhou para seupróprio quintal. O etnomusicólogo Alberto T. Ikeda, do Instituto de Artesda Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), no texto deapresentação do libreto deste programa-piloto, formula umateoria sobre tal indiferença. Conta que, a partir da fundação deseu primeiro núcleo populacional, a Vila de São Vicente, em 1932 e durante o período do expansionismo paulista, a culturacaipira (do tupi kaa´pora, ou "habitante do mato", ou "aqueleque mora em regiões distantes") foi se conformando e seespalhou para todo o Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste. Essa matriz se desenhou com soma dos imigrantes europeuse asiáticos e a dos migrantes de outros Estados. Escreve Ikeda:"No entanto, apesar dessa história, a imagem do Estado tem sidomais destacada como a ´locomotiva do País´, relacionada aoprogresso, à industrialização, ao trabalho e às grandes cifraseconômicas, corroborando a figura forjada do bandeirante herói eempreendedor. Nessa vertente, pouco se ressalta os aspectosculturais dos paulistas que não conformam esses imaginários,sobretudo quando relacionados com as expressões tradicionais,como é o caso da cultura dita folclórica." Co-diretor e co-roteirista de São Paulo, Corpo &Alma, Rubens Xavier (que divide o trabalho com Paulo Dias, osdois da Associação Cultural Cachuera!) constata: "São Pauloparece que é a terra da morte da morte da cultura popular." Ele não fala apenas de registro sonoro e visual dasmanifestações particulares dos 645 municípios, mas da própriafalta de orgulho de pertencer a determinada comunidade queproduz centenariamente determinada manifestação. Dessa constatação, e da percepção de que é urgenteresgatar esse orgulho - os praticantes da umbigada, do catira,do moçambique, os dançarinos do samba-lenço, os romeiros doDivino, os participantes das folias, os cururueiros e todos osoutros são, em geral, idosos, e seus cantos, danças edramatizações correm sério risco de perder-se, esquecidos,desprezados, substituídos por modismos - é que nasceu o trabalhodo Cachuera!, criado há 13 anos pelo etnomusicólogo Paulo Dias. O Cachuera! foi procurado, no ano passado, pelaSecretaria de Estado da Cultura, que encomendou um projeto tendocomo assunto a cultura popular. Recebeu de volta a idéia dasérie, mapeando as manifestações, reunidas por temas, em 30programas de meia hora cada um. Para o programa-piloto foram usadas imagens edepoimentos do acervo do Cachuera! e outros, colhidos no anopassado, durante a quinta edição do evento Revelando SãoPaulo, organizado pela Secretaria, um dos poucos de cunhooficial dedicados à cultura popular (num sintoma de que amentalidade talvez esteja mudando). Estão nas imagens a Congada do Bairro São Francisco, deSão Sebastião, a Congada de Santa Ifigênia do Bairro de SantaTereza, a Companhia de São Benedito da Várzea do Gouveia e aFolia do Divino Espírito Santo de Mestre Lico Sales, os três deCunha, a Romaria do Divino Espírito Santo de Mestre Jacaré e oFandango de São Paulo Bagre, de Cananéia, a Companhia de ReisUnidos das Coroas, de Batatais, a Folia de Reis AssociaçãoFolclórica Estrela do Oriente, de Castilho, os toques deberrante de Marcinho Berranteiro, de São José do Rio Pardo, ocururu de Abel Bueno e Jonata Neto, de Piracicaba, o GrupoCaçula de Catira, de Bauru, a dança de São Gonçalo, de Olímpia,o Jongo do Tamandaré, de Guaratinguetá, o Batuque de Umbigada,de Tietê, Piracicaba e Capivari, o samba-lenço, de Mauá. Para dar prosseguimento à série, o Cachuera! está embusca de patrocínio. O governo do Estado liberou verba apenaspara o programa-piloto, esse que vai amanhã ao ar. Enquanto isso a associação prepara para lançar, no mês que vem, numa parceriacom o Itaú Cultural, mais três CDs (os volumes de 4 a 6) deoutro projeto importantíssimo, o Comunidades do Tambor: Famaliá- Sons do Urucuia; Caixeiras da Casa Fanti-Ashanti - Cantar eTocar para o Divino; e Cristãos e Mouros na Dança DramáticaBrasileira. Serviço - Documentário: "São Paulo, Corpo & Alma".Amanhã, às 21 horas. "TV Cultura" (Operadoras/canais: "Sky",37; "Directv", 213; "NET", 16).

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