Documentário repassa tese do assassinato de Cobain

Ouça bem. "Courtney sempre foi umaoportunista. Casou com Kurt Cobain, tirou todo o dinheiro dele,ficou famosa e agora anda com o jetset hollywoodiano. A próximavítima dela é o ator Edward Norton." Esse é um dos depoimentos"edificantes" do controverso documentário Kurt & Courtney,que o canal pago GNT exibe nesta quarta-feira às 23h20. O detalhe é queas palavras de "carinho" são do próprio pai da atriz e roqueiraamericana Courtney Love, Hank Harrison, um ex-dead head (fãardoroso do grupo psicodélico Greatefull Dead) e autor de doislivros sobre Cobain, o líder do Nirvana. "Ele foi assassinado", diz, categórico.O documentário dirigido pelo jornalista inglês NickBroomfield sustenta (com pernas bambas) a tese de assassinatoarquitetado por Courtney Love. E, como se vê pelo depoimentopaterno, joga a luz dos holofotes na direção de pessoas queconcordam com essa mesma tese. Em 1994, assim que o corpo deKurt Cobain foi encontrado com os miolos em frangalhos nagaragem de sua casa em Seattle, o jornalista partiu para aAmérica e passou os dois anos seguintes entrevistando pessoasque tiveram algum tipo de relação com o casal-problema.A visão maniqueísta de Broomfield prevalece. Kurt Cobainé o roqueiro punk atormentado pela fama e pelo dinheiro. "Nãose pode comprar a felicidade", diz o autor de Smells LikeTeen Spirit. E Courtney surge como uma espéciede Yoko Ono maquiavélica e opressora. No entanto, ahistória real prova que ambos, como de resto todos os sereshumanos, tinham em si o bem e o mal.Entre os entusiastas da conspiração assassina,destaca-se, por exemplo, a ex-babá da herdeira Frances BeanCobain. "Eles brigavam o tempo todo e ela vivia dizendo que omataria." E, também, o detetive Tom Grant, contratado porCourtney para descobrir o paradeiro do músico (a morte deu-se nodia 5 de abril, mas o corpo foi achado três dias depois por umeletricista). "As digitais da arma encontrada ao lado de Cobainforam apagadas. A suposta carta de despedida escrita por ele temtodos os indícios de ser uma farsa e, além do mais, Cobainestava drogado e não teria condições para apertar o gatilho",informa o policial.Outro personagem digno de nota é o ex-vocalista do grupoThe Mentors, El Duce. O cantor que costumava apresentar-sevestido de torturador medieval alega que Courtney teria lheoferecido US$ 50 mil para dar cabo do marido. "Ela falou paraque eu desse um tiro na cabeça dele, mas não aceitei", revelaele, aos risos. Porém, a acusação não pôde ser devidamenteapurada. El Duce morreu atropelado por um trem em RiversideCalifornia uma semana depois da conversa com Broomfield.Mistério rocker.Em contraposição ao pai que espinafra a filha diante dascâmeras, Broomfiled dá voz à impagável Mary Cobain, tia domúsico. Além de ter presenteado o sobrinho com o primeiro violão(ainda em seu poder), Mary cedeu a sala de casa para que Cobaingravasse as primeiras fitas demo - foi com esse material brutoque Kurt Cobain convenceu os amigos a acompanhá-lo no que setornaria a mais importante banda de rock dos anos 90.Bebê Nirvana - No quesito raridades, tia Mary tem tambémem seus arquivos os registros do artista aos 2 anos balbuciandocanções dos Beatles, chamando pelo amigo imaginário Boddah (paraquem estava endereçada a carta de suicídio) e esgoelando coisasimcompreensíveis. "É o bebê Nirvana", comenta ela, queatualmente ministra palestras musicais antidrogas em escolasprimárias. É impossível não se comover com as aparições de tiaMary no documentário.Quem também se destaca no absurdo que foi a vida de KurtCobain é seu melhor amigo (ou inimigo), Dylan Carlson. Afeito àsarmas e ao uso de substâncias químicas, Carlson indicou uma lojade sua preferência e presenciou a aquisição do revólverencontrado junto ao corpo. "Pensei que Kurt quisesse sedefender das ameaças de morte", diz ele, com olhar para lá deperdido. "Mataram-no", engrossa o coro paranóico. Odocumentário dá conta também das dificuldades encontradas porBroomfield, desde as tentativas acidentadas de entrevistarCourtney Love até os aconselhamentos anônimos que recebeu, dotipo: você deve parar com essa produção.Ainda que hoje a vilã de Kurt & Courtney esteja maispara bela do que para fera e o legado do mocinho sejaabsolutamente inquestionável (as fartas comemorações dos dezanos de lançamento do segundo álbum do Nirvana, Nevermind,são prova disso), o longa-metragem de Broomfield, que o GNTmostra amanhã, vale como um singular testemunho delirante.Em tempo: o caso Kurt Cobain foi encerrado pela polícia deSeattle ainda em 1994.Kurt & Courtney. Amanhã (03), às 23h20. Canal pago GNT.

Agencia Estado,

02 de outubro de 2001 | 15h37

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