Documentário mostra a obra genial do músico Tom Zé

´Fabricando Tom Zé´ trata da redescoberta e revalorização de um grande artista

Luiz Zanin Oricchio, do Estadão

07 de julho de 2013 | 11h06

Você olha para Tom Zé e ele não tem muito jeito de um mestre. Para retomar a distinção de Pound, ele fica melhor como um inventor. É, talvez, o mais criativo dosmúsicos brasileiros, ou pelo menos um dos mais. Acontece que, durante muito tempo, o Brasil não soube disso. Discreto, Tom Zé mergulhou em seu silêncio particular e dele saiu apenas quando um norte-americano, David Byrne, disse algumas coisas muito óbvias a seu respeito, como ser Tom Zé uma exceção entre os criadores contemporâneos e dono de obra universal. Como Byrne disse tudo isso em inglês, foi ouvido com atenção no Brasil. O documentário Fabricando Tom Zé, de Décio Matos Jr., faz parte dessa corrente de redescoberta e revalorização de um grandeartista. O filme acompanha Tom Zé em sua intimidade, mas, sobretudo, durante uma turnê européia. Vai a Irará, no interior baiano, onde o compositor nasceu e se criou. Ouve algumas (poucas) personalidades ligadas à vida do músico, como Caetano e Gil, seus companheiros de tropicalismo, o crítico Tárik de Souza o poeta Arnaldo Antunes, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras, do grupo Corpo. Mas o mais interessante é sempre Tom Zé, sua particular relação com as outras pessoas, com os sons, com oMundo. IntimidadeEm conversa com o Estado, Tom Zé disse que a filmagem foi muito tranqüila: "Eles (a equipe) são rapazes muito jovens, simpatizei demais com eles, e o Décio tem uma qualidade importante, ele desaparece junto de você. Quer dizer, está lá,te filmando e você acaba nem se dando conta disso", diz. Melhor assim, pois Décio e sua equipe conviveram longamente com o músico e sua banda. A ponto de terem 30 horas de material gravado, que tiveram de reduzir a um longa-metragem de 89 minutos. A intimidade chegou a tal ponto que o cineasta pôde registrar os bons momentos, a excelente receptividade em alguns shows europeus, mas também alguns percalços e mesmo uma gloriosa saia-justa - a briga de Tom Zé com um técnico de som suíço em Montreux. "O mais importante nem foi tanto ele ter pego aquela cena toda", diz Tom Zé, "mas tê-la montado de um jeito particular, com um crescendo de emoção muito grande e de efeito" diz. De fato, a cena é forte, ocupa posição central no filme e se torna muito reveladora. Nela, vemos o músico brasileiro insatisfeito durante a passagem de som e um técnico suíço que, de forma arrogante, exige que ele defina "as freqüências que não estão funcionando e pare com o blablablá". Literalmente, Tom Zé peita o rapagão sarado e enfeixa um discurso interessante sobre as relações entre Brasil e Primeiro Mundo. "Eles não podem é agir de uma maneira vil conosco", resume. Para Tom Zé, oseuropeus têm toda a saúde do mundo, todo o dinheiro, toda a tecnologia e, mesmo assim, "precisam importar a nossa música, a nossa criatividade, sem a qual o festival deles não vive".Essa relação do nacional versus o internacional foi uma das pedras de toque do movimento Tropicalista. E esse é também um dos subtemas desenvolvidos no documentário. Quando o Tropicalismo Explode, no final dos anos 60, Tom Zé se encontra no olho do furacão do movimento. Com o agravamento da ditadura, Caetano e Gil seguem para o exílio em Londres, voltam anos depois, enquanto Tom Zé vive em seu ostracismo paulistano. Houve quem o chamasse de "enterrado vivo no espólio do tropicalismo". Reavaliando o episódio, Tom Zé procura ser justo com Caetano e Gil. "Em São Paulo, que é uma cidade oriental, você aprende que quando um amigo está colocando a sua vida em risco, você não vai tentar salvá-lo, senão os dois morrem abraçados", diz, de maneira alegórica. E, sendo mais preciso: "Eu mesmo fui culpado pelo ostracismo, eu precisava dele, como Joyce, o autor de "Ulisses", precisou atravessar o dele." Aliás, o próprio Ulisses da mitologia grega precisa cumprir suas etapas para voltar a Ítaca, sua cidade natal. Antenado de IraráO que ninguém poderia esperar é que Tom Zé saísse desse isolamento com uma obra surpreendente. Uma obra que ele ficou cozinhando em sua solidão e que, caindo nos ouvidos de David Byrne, o tornaram um dos músicos experimentais reconhecidos internacionalmente.Lembrando os anos 60, Tom Zé pede para que as pessoas sejam justas com Caetano e com Gil. "Ninguém pode tirar deles o mérito de, durante a ditadura, ter mantido no País uma certa efervescência de pensamento; e isso é fundamental, porque qualquer regime autoritário teme o pensamento livre." Tom Zé recorda que no momento em que a própria esquerda, de onde se esperava que viesse a renovação, se fechava num nacionalismo obtuso, eram os tropicalistas, Caetano e Gil à frente, que já tentavam antenar o País com a chamada 2.ª Revolução Industrial, esta mesma que vivemos hoje com tanta intensidade. Continua antenado nessa, Tom Zé? Com certeza, mas como brinca no filme sua mulher, Neusa, por outro lado, ele nunca saiu de Irará. Todo Ulisses que se preza precisa de uma Ítaca, nem que seja virtual.   Assista ao trailer Fabricando Tom Zé (Br/ 2006, 89 min.) - Documentário. Cinesesc - 17, 19, 21 h (2.ª não haverá 21 h). Espaço Unibanco 4 - 14h20, 16h10, 20h20, 22. HSBC Belas Artes 5 - 16, 17h50, 19h40. Unibanco Arteplex 5 - 13, 14h40, 16h30, 20, 22h (sáb. também à 0 h). Cotação: Bom

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