Documentário homenageia diretor Zbigniew Ziembinski

Fundador do moderno teatro brasileiro, o polonês Ziembinski faria cem anos no próximo ano

Luiz Carlos Merten, do Estadão,

07 de setembro de 2003 | 17h16

Completam-se, em 2008, 30 anos de morte e o centenário de nascimento de Zbigniew Ziembinski, o diretor polonês que atravessou o Atlântico, fugitivo do nazismo, para inaugurar, às vésperas do Ano Novo de 1941, o moderno teatro brasileiro. Naquele ano, introduzindo o conceito de "diretor" nas montagens realizadas no País e que, até então, eram centradas na figura mítica do ator, Ziembinski montou uma peça de um jovem autor que se tornaria um dos maiores dramaturgos do Brasil (o maior?) - seu título era Vestido de Noiva e o autor, um certo Nelson Rodrigues.  Veja galeria com imagens de Ziembinski  No ano de 2000, por conta das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil, Ursula Groszka produziu a montagem de Vestido de Noiva nas cidades polonesas de Lodz e Varsóvia. Aprofundando-se no resgate da célebre (e pioneira) montagem de Ziembinski, ela acalenta, desde então, o sonho de realizar um documentário sobre o artista, polonês por nascimento, mas que se fez brasileiro por paixão a este País e à sua cultura. O sonho começa a se tornar realidade. Ursula Groszka está produzindo um documentário sobre Ziembinski, com cenas filmadas no Brasil e na Polônia. Em fase de captação no País, o projeto tem um parceiro polonês, o produtor Zbigniew Domagalski, que reafirmou em abril, ao visitar a cidade, durante o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, sua disposição de participar da realização. Úrsula viaja nos próximos dias para a Polônia para fechar o contrato e para visitar as locações que já estão sendo buscadas nas cidades de Cracóvia, Varsóvia e Wieliczka, que vão se somar a Rio e São Paulo no Brasil. A idéia é lançar Ziembinski no ano que vem, como parte das comemorações do centenário de nascimento do ator e diretor. Do ator, sim, pois foi como ator que esse filho do médico de uma mina de sal na cidadede Wielisczka iniciou sua carreira nos teatros de Cracóvia e Vilna. Em 1939, o bombardeio de Varsóvia iniciou a blitzkrieg, a guerra-relâmpago de Adolf Hitler. Ziembinski exilou-se na França, mas logo em seguida os alemães desfilavam seus tanques pela avenida dos Champs-Elysées. Sentindo que a Europa não era mais segura para ele, o artista tentou conseguir um visto para os EUA, que virara a Meca e a Medina dos intelectuais que fugiam ao nazismo. Depois de muita dificuldade, Ziembinski conseguiu um visto para Nova York, mas sua viagem teria de ter uma etapa intermediária, o Brasil. Ziembinski desembarcou no porto do Rio, circulou pelos arredores e teve uma visão interessante da malandragem e do colorido. Fez amizades rapidamente, decidiu ficar. Adeus, Nova York. A dramaturgia brasileira nunca mais seria a mesma. Existe um antes e um depois de Ziembinski no teatro montado no País. Ursula Groszka, que tem se dedicado a lançar pontes culturais entre Brasil e Polônia - levou as peças brasileiras às cidades polonesas no quadro das comemorações do Sesquicentenário, tem promovido retrospectivas de cinema que já trouxeram ao País um diretor tão importante quanto Roman Polanski, planeja para o ano que vem uma grande retrospectiva do cinema brasileiro em Wroclaw -, considera este projeto particularmente importante. Para a realização, ela contratou o mineiro Kiko Goifman, antropólogo pela Universidade Federal de Minas e mestre em multimeios pela Unicamp.  Kiko é um dos mais interessantes documentaristas brasileiros da atualidade. Não realiza documentários, por assim dizer, objetivos. Personagens e situações são sempre filtrados pela experiência do diretor. Em 33, ele transformou a busca por sua mãe biológica - é filho adotivo -, numa investigação sobre a linguagem que faz deste filme uma raríssima experiência noir. Em Atos dos Homens, tendo ido à Baixada Fluminense para documentar uma chacina, ele mudou o rumo do projeto e fez alguma coisa no estilo "a violência e eu". Kiko Goifman responde a uma provocação do repórter - vamos ter, então, Zbigniew Ziembinski e eu? "Não necessariamente, mas a questão da identidade é essencial na figura e na obra de Ziembinski. E discutir as identidades é uma coisa que me interessa muito, até como forma de investigar o País." Consagrado no Brasil, Ziembinski voltou à Polônia em 1964 e só aí reencontrou o filho que havia deixado, ao fugir do país. Justamente o filho,Krszystof - ator e diretor, como o pai -, foi quem autorizou a realização do documentário e ajuda na pesquisa iconográfica. Dois parceiros poloneses trabalham comUrsula Groska na realização do documentário sobre Zbigniew Ziembinski. Ambos estiveram no Brasil, em abril, durante a realização do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários. "Os dois me assessoraram na curadoria que fiz da retrospectiva da mostra de Krisztof Kieslowski para o Amir Labaki", ela conta. Zbigniew Domagalski é um dos mais importantes produtores poloneses da nova geração, tendo sido indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro por How You Do It, um filme metalingüístico sobre uma equipe que tenta garantir que seu projeto seja selecionado pela Academia de Hollywood.  Domagalski entra com metade da produção orçada em R$ 1,4 milhão - o restante Úrsula capta no Brasil, estando em negociações com a Rio Bravo, investidora de filmes como Olga e Querô. O outro parceiro na Polônia é o diretor e roteirista Krszystof Wierzbicki, de I’m So-So, documentário sobre Kieslowski que foi exibido no É Tudo Verdade. "Ele está localizando pessoas que conheceram Ziembinski ou que com trabalharam com ele em 1964, quando voltou à Polônia para montar O Boca de Ouro e Vereda da Salvação, duas peças de Nelson Rodrigues e Jorge Andrade que não fizeram sucesso nem de crítica nem de público. Ziembinski havia se apresentado como pai do teatro brasileiro. Desgostoso, voltou ao Brasil para fazer TV", Úrsula conta. Contar a história dessa vida que atravessa um oceano e faz ponte entre duas culturas, dois continentes, não virou só uma obsessão de Úrsula. Seu marido, o psiquiatra e dramaturgo Reinaldo Mesquita, foi fundo na dissecação da personalidade do artista e escreveu um argumento que foi apresentado a Kiko Goifman. O cineasta apoiou-o integralmente, achando que pode resultar num trabalho intrigante e inovador. Um documentário com roteiro? A essência do documentário é sempre aquele elemento de surpresa - o diretor não sabe nunca, exatamente, o filme que vai fazer. João Moreira Salles mudou o rumo de Santiago e fez outro filme, 14 anos depois. Kiko está entusiasmado. Vêm mais documentários nas bordas da ficção, por aí.

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