Documentário estreia em março

"Tenho até medo de fazer show em São Paulo em janeiro, porque de repente pode chover tanto que as pessoas não conseguem nem sair de casa", diz Nana Caymmi. Se nem para pegar a ponte-aérea entre Rio e São Paulo ela tem muita confiança, imagina ir até Jericoacoara, como fez seu irmão em dezembro. Só de ouvir os relatos de Dori Caymmi, ela conta que quase se molhou de tanto rir. "Ninguém me faz uns convites desses. Quando tinha 30 anos, eu me metia em qualquer duna, subia e descia, dava uma de Tieta. Agora na minha idade, me poupe."

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2011 | 00h00

Dori é um dos entrevistados para falar de Nana no documentário Rio Sonata, de Georges Gachot, que foi exibido em mostras em 2010 e tem estreia prevista para março no circuito comercial em São Paulo. É um filme impressionista, que mostra um Rio de Janeiro sem o clichê ensolarado, evitando tanto o aspecto turístico convencional como o lado miserável das favelas, já saturado nas recentes produções nacionais.

A textura de certas imagens tem relação com o impressionismo de Monet, a referência erudita do título está diretamente ligada ao pianista Nelson Freire - artistas que Nana tanto admira. O passeio poético pelos pontos do Rio menos visados pelos turistas foi sugerido pela cantora. O diretor a conheceu em 2004 quando rodava Maria Bethânia - Música É Perfume. Um dos momentos mais descontraídos de Rio Sonata é o encontro de Nana com Bethânia e Miúcha, no camarim, depois do show Brasileirinho, da cantora baiana.

Uma voz adorável. Há revelações curiosas, como a de Gilberto Gil sobre a belíssima Bom Dia, que ele compôs com Nana e os dois apresentaram juntos no III Festival da Música Popular Brasileira, em 1967. Os dois eram casados na época e, como diz Gil, muitos achavam que a canção era dele e a inclusão do nome dela foi mera cortesia ou favorecimento. Mas Gil garante que a composição é mais de Nana do que dele. No ano anterior, Nana defendeu Saveiros no I Festival Internacional da Canção, de Dori Caymmi e Nelson Motta, por insistência do irmão. Motta queria Elis Regina como intérprete, conta Dori.

Entre altos e baixos do ponto de vista da direção há outras passagens e episódios divertidos - como quando Nana, entre amigas jogando baralho, se deslumbra com a própria voz. "Eu me adoro cantando", diz ela com a espontaneidade própria de sua personalidade e arranca gargalhas da plateia. A propósito, a grande estrela do filme é a voz da cantora, que emociona entoando Até Pensei, de Chico Buarque, e em vários outros números musicais, com tema de Dorival Caymmi, Tom Jobim, Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

Escorregadas. No aspecto visual e musical, Gachot prestou um belo tributo em vida a uma das maiores cantoras da geração mais produtiva da história da canção brasileira. Porém, deu escorregadas feias no aspecto documental. Ficaram de fora José Milton, produtor dela há 20 anos, uma pessoa-chave na vida musical e pessoal de Nana, seu irmão Danilo Caymmi, Alcione, uma de suas grandes amigas.

Em contrapartida, sobra Mart"nália, em aparição absolutamente fora de propósito, sem nenhuma ligação com Nana. A filha de Martinho da Vila surge do nada fazendo comentários dispensáveis sobre Resposta ao Tempo (Cristóvão Bastos/Aldir Blanc), tema da minissérie Hilda Furacão. Na sequência seguinte, ainda mais fora de contexto, ela aparece no trecho de um show cantando A Tonga da Mironga do Kabuletê (Vinicius de Moraes/Toquinho).

Nana preferiu não comentar o episódio, mas há quem veja nessa inserção forçada de Gachot a intenção de dar dica sobre um próximo documentário seu. "Gostei do filme primeiro por um estrangeiro focar em mim. Dei muito mais valor, porque esse cara veio de longe e se encantou pela minha formação musical. Ele é muito interessado na música brasileira. Isso é importante para o Brasil."

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