Documentário analisa transformações na cultura negra dos EUA

No momento em que os Estados Unidostêm a oportunidade de eleger seu primeiro presidente negro, adestacada escritora americana Toni Morrison diz que osestudantes universitários negros de hoje não estão tão focadossobre questões raciais quanto seus antecessores. "Eles não se interessam pela divisão racial. Esse assuntoos entedia", disse Morrison, professora da UniversidadePrinceton e primeira escritora negra a receber o Prêmio Nobelde Literatura. "Eles nem querem falar sobre isso." Morrison e outros negros americanos destacados falam sobrecultura negra em um novo documentário da HBO que vai ao ar estasemana na TV americana, "The Black List Vol. 1", incluindoentrevistas com 23 americanos negros de sucesso em diferentescampos. Transmitido na semana em que o senador Barack Obama estáprestes a obter a indicação para ser candidato do PartidoDemocrata à presidência, o documentário ressalta o significadode ser negro nos EUA e como isso evoluiu desde o movimento dosdireitos civis, dos anos 1950 e 1960, que lutou para abolir adiscriminação racial. "A candidatura de Obama trouxe a discussão mais aberta daquestão racial desde o movimento dos direitos civis. Este é ummomento maravilhoso", disse o fotógrafo TimothyGreenfield-Sanders, que dirigiu o filme. Morrison, 77 anos, disse à Reuters que algunsafro-americanos mais velhos têm dificuldade em aceitar que ostempos mudaram desde o movimento dos direitos civis, enquanto opaís chega mais perto da igualdade. De acordo com ela, a geração mais velha "às vezes reluta emver aquilo pelo qual lutou, uma sociedade não-racista, seconcretizar, porque realmente quer que isso aconteça, mas temdificuldade em abrir mão de sua luta". Morrison e outros entrevistados no documentário, entre elesColin Powell, disseram que ainda não há igualdade racial plenanos EUA. Powell cita o fato de pessoas terem questionado suaindicação a secretário de Estado dos EUA, devido a sua raça, eos problemas atuais de crianças negras para terem acesso aensino de qualidade. Acompanhando o filme, uma exposição de retratosfotográficos vai percorrer várias cidades americanas, e serápublicado um livro de ensaios e fotos. "Isso abre nossos olhos para o conceito de que o talentonegro é muito mais amplo e abrangente do que se imaginava",disse Greenfield-Sanders, observando que as entrevistas feitaspelo jornalista Elvis Mitchell tiveram por objetivo romperestereótipos. O coreógrafo Bill T. Jones comentou que os tempos mudarammuito desde o início dos anos 1980, quando outros artistasnegros, como ele, se sentiram ultrajados quando ele declarouque se enxergava como artista, em primeiro lugar, e negro, emsegundo. "Hoje tudo mudou e ficou muito mais complexo. Naquelaépoca, eu toquei numa ferida, já que a memória dos anos 1960era muito mais recente", disse ele. "A América ainda tem grandes problemas com a raça", disseJones, mas acrescentou que a candidatura de Obama mostra "quehá muito de que nos orgulharmos". Para Toni Morrison, a atenção voltada à raça de Obama nãopassa de cortina de fumaça. "É como Otelo: todo o mundo foca o fato de Otelo ser negro,mas isso é o menos importante nele", disse a escritora. "Quemquer falar sobre problemas reais, quando se pode dizer 'oh, eleé negro?'." Alguns dos entrevistados dizem que, se Obama chegar àpresidência, isso vai restaurar a fé nos ideais americanos. "Isso fará muito pela imagem que o país tem dele mesmo, enão me refiro apenas a meninos e meninas negros que poderãodeclarar 'eu posso!"', disse Jones. "Todo o mundo poderá dizer 'este é verdadeiramente um paísem que, se você se esforçar o suficiente e tiver as habilidadescertas, conseguirá fazer qualquer coisa que quiser'. E é issoque os EUA sempre representaram."

CHRISTINE KEARNEY, REUTERS

26 de agosto de 2008 | 21h42

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