Documenta recupera a arte

Trunfo da 13ª edição é refletir sobre a força transformadora da criação

SHEILA LEIRNER, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h09

Seria bom se os curadores que recebem a incumbência de organizar uma exposição de número 13 encontrassem uma forma de conjurar a sorte. Essa cifra é perigosa. Sobretudo quando a mostra é uma Documenta que, em vez de servir de barômetro da situação artística internacional como as edições precedentes, quer extrapolar a arte para tentar explicar e "refazer" o mundo.

Nunca Kassel testemunhou tal dispersão espacial e conceitual. O que poderia estar contido em apenas dois dos três andares do pavilhão do Ibirapuera espalha-se pela cidade inteira. Os trabalhos ocupam os museus apenas parcialmente. Talvez seja um bom plano turístico: os visitantes precisam de, no mínimo, 72 horas para cobrir quatro vezes (como em 2007) os 24,6 milhões que custa este evento de 100 dias. É bem provável que seja também um bom plano de curadoria: o espalhamento torna sempre menos visível a desigualdade qualitativa e faz a mostra parecer maior.

Assim, depois de se esgotar fisicamente numa espécie de rali pedestre que inclui também um jogo de esconde-esconde (passa-se um tempo absurdo a procurar pelos trabalhos), a impressão que fica é oposta ao dramatismo que se assiste na vida real. Não há pathos. Não há teatralidade. Trata-se de um conjunto ultracrítico, político e ecológico que, em grande parte, denota lucidez e consciência nas analogias histórico-geográficas e nos aspectos essenciais do nosso mundo passado e presente.

Caos e destruição são formalizados, sem formalismo. Transparece dor, tristeza, desesperança, dúvida, procura, necessidade de transmissão, transcendência - jamais dramaticidade. Transluz o sentimento de uma "surrealidade", não para ativar o inconsciente, o irracional, o sonho, e transcender a realidade empírica como os surrealistas, mas para entender o absurdo do nosso tempo e também para revolucionar os valores artísticos, políticos e filosóficos, isto sim, como os surrealistas. Contrário ao vigor e à exaltação do surrealismo, o clima gerado é pesado. E muito grave.

Não que as intenções sejam negativas. A curadora e escritora Carolyn Christov-Bakargiev é uma livre atiradora militante, guiada pelo feminismo, por Adorno, impressionada pela destruição ecológica e, sobretudo do patrimônio cultural. Apesar de sua ambição visionária e curiosidade sem limites, ou talvez justamente por causa dessas qualidades necessárias, ela revela uma personalidade complicada, com certos traços que não ajudam muito quando se quer entender uma exposição.

Visão amplificadora demais, inclinação exagerada à dispersão, pendor à desorientação e à dissipação, satisfação em divergir (vício de escritor?), tendência a embarcar nas teorias do momento, fascinação desmedida (e bastante esnobe) pelos exóticos exílios circunstanciais (Afeganistão, Egito, Canadá, etc.), feminismo ferrenho e, enfim, a contradição que opõe uma aparente reivindicação democrática a uma posição intransigente e autoritária. O que diria a curadora - que se sentiu "ameaçada" pela singela figura, colocada por um artista não convidado, no sino de uma igreja da cidade e pela bandeira italiana de um carrinho de sorvete no parque - se tivesse que enfrentar uma Carolina Pivetta e mais 40 pichadores no térreo vazio (a obra é de "vento") do museu Fridericianum?

CCB, que é como todos a chamam por não conseguirem pronunciar o seu nome, tem talento para organização, mas nos últimos sete anos as suas escolhas deixaram os observadores dubitativos. Hoje, o problema está menos nas preferências do que na sua vontade de ser "original", afastando-se da reflexão intrínseca aos caminhos artísticos e, sobretudo, da prática mesma de torná-los compreensíveis para o público. Este é o problema de quem não é crítico de arte e joga em todas as posições com o auxílio de muitos representantes de inúmeras áreas da experiência, criação e ativismo, dos mais comuns aos mais extravagantes - todos colocados na mesma categoria, junto com os artistas. Inclusive uma "obscura 'analista inconsciente'", que é como o jornal alemão ArtInfo se refere a uma psicoterapeuta brasileira.

Se a pretensiosa sala inteiramente consagrada às pesquisas do físico A. Zeilinger pode satisfazer a megalomania erudita de um curador, para quem é possível a totalização do conhecimento e dos saberes, ao público que não conhece física quântica ela se torna apenas um "gadget". Mas, na "maravilhosa confusão" das pistas e informações, há lugar também para os animais: partindo do princípio que a cultura está igualmente na natureza, a exposição os transforma em sujeitos, atores e coautores de algumas obras.

Dizem que as pessoas possuem as qualidades de seus defeitos, ou seja, que o reverso da moeda pode ser bom. De fato, ao estabelecer contatos com a história e procurar vias originais de expressão e conhecimento, a exposição faz igualmente uma espécie de tábua rasa, abrindo espaço para a reflexão, não apenas sobre o mundo, mas sobre a força da arte - que continua pungente, transformadora e sempre nova.

Mais da metade das obras que estão na Documenta 13 poderiam ser qualificadas como medíocres e esquemáticas, com simbolismos e didatismo elementares. Há vitrinas e arquivos demais. Uma pequena parte de trabalhos deveria até mesmo ter sido descartada. Contudo, paradoxalmente, os defeitos e aptidões da curadora - aliados ao grande luxo de ela ter tido cinco anos para organizar a mostra - permitem igualmente a presença de um bom punhado de obras extraordinárias que já fazem valer o esforço da visita.

São trabalhos que se impõem, explicando por eles mesmos tudo que o discurso, o controle e o descontrole curatorial não conseguem atingir. Além disso, representam a parte ideológica da arte internacional - já iniciada em 72 por Joseph Beuys em Kassel - aquela das revoltas e das lutas, em contraposição à arte das feiras e do mercado. O que, nos tempos materialistas de hoje, constitui uma proeza e uma prova de retidão moral que recoloca a arte no seu lugar justo, onde ela parecia não existir mais.

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