Documenta de Kassel conjuga arte com política

Precedida por grandes seminários interdisciplinares que vêm sendo realizados desde o ano passado em diferentes continentes, a 11.ª edição da Documenta de Kassel será aberta ao público dentro de um mês, naquela cidade alemã, apresentando obras de 116 artistas - entre os quais Cildo Meireles e Artur Barrio como representantes do Brasil - e sob de críticas de que seu diretor artístico, o nigeriano Okwui Enwezor, estaria subjugando a arte à política. Para Enwezor, porém, a Documenta deste ano vai além da esfera da produção de arte para poder refletir sobre seus limites, a transição histórica pela qual passa o mundo e o lugar da arte nesse panorama."Não posso entender como é possível separar a arte das questões políticas e sociais, parece quase impossível ver a Documenta criticamente apenas através da perspectiva que é oferecida pela exposição em si", disse Enwezor, anteontem, em entrevista coletiva dada em Nova York, cidade onde mora.Defendendo-se contra as acusações de ter suprimido o caráter estético da mais importante exposição internacional de arte contemporânea em favor de um manifesto ideológico, ele salientou que esta é a maior e mais ampla Documenta já realizada."Mais de 70 projetos foram desenvolvidos especialmente para a mostra, artistas de todas as gerações e de todas as partes do mundo foram convidados para apresentar trabalhos que representam os mais diversos campos da produção cultural e a área de exposição foi aumentada em mais de 5 mil metros quadrados", enumerou o diretor. Este ano, além do Museu Fridericianum e outros espaços usados por ela tradicionalmente, a Documenta vai ocupar um prédio industrial, o da antiga Cervejaria Binding, construído em 1897.Assim como começou muito antes dos cem dias em que as obras de arte serão apresentadas em Kassel (a exposição vai de 8 de junho a 15 de setembro), a Documenta XI vai se estender por muito tempo depois, por meio de várias publicações. Todas as conferências e discussões dos quatro seminários - chamados de plataformas - que a precederam, realizados em Viena, Nova Délhi, Santa Lúcia e Lagos, serão compilados numa série especial de livros. Os seminários tiveram a participação de historiadores, sociólogos, antropólogos, escritores, cineastas e artistas plásticos, discutindo temas desde o fracasso da democracia liberal a formas jurídicas de justiça e novas configurações de identidade.Seguindo conceito bem parecido ao da 2.ª Bienal de Johannesburgo, em 1997, da qual também foi responsável, Enwezor contou com a ajuda de seis curadores para realizar a Documenta XI. Para ele, esse é um evento "mais diagnóstico do que prognóstico", que não tenta definir o que é a "nova" arte contemporânea. O mais importante, segundo o diretor artístico, "é abrir um espaço no qual os artistas podem expressar novas idéias e perceber um mundo novo".

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