Rozette Rago/The New York Times
Rozette Rago/The New York Times

Doces sonhos: ‘Sandman’ de Neil Gaiman ganha versão em áudio drama

A primeira parte da série, que consiste em 20 episódios, se baseia nos três primeiros volumes da graphic novel

Dave Itzkoff, The New York Times

11 de julho de 2020 | 11h00

Quando Neil Gaiman criou sua influente série de quadrinhos The Sandman, para a DC Comics, no final dos anos 80, ele era apenas um neófito literário de 26 anos de idade, com alguns contos e graphic novels no currículo e uma ambição ainda desconhecida.

“Olhando em retrospecto, acho que convenci a DC a publicar porque eles realmente não sabiam onde estavam se metendo”, disse ele recentemente.

Três décadas depois, Gaiman, agora com 59 anos, é um autor de sucesso e marca própria, cuja ficção forneceu material de origem para filmes como Stardust - O Mistério da Estrela e Coraline e séries de televisão como Good Omens e American Gods.

The Sandman, uma história episódica e em constante transformação que variava em tom e tema – da comédia leve ao suspense macabro – foi originalmente publicada de 1989 a 1996. Mas, ainda que boa parte da escrita de Gaiman tenha sido trazida para outras mídias, essa obra formativa vinha resistindo aos esforços para apresentá-la sob qualquer outro formato que não a página impressa.



Não foi por falta de tentativa, pois vários estúdios de cinema e TV se interessaram por The Sandman ao longo dos anos. Mas o fato de algumas adaptações para as telas não terem se materializado, disse Gaiman, “sempre foi uma inacreditável fonte de alívio para mim – basta um pequeno deslize para Sandman dar muito errado”.

Agora, uma adaptação multimídia autorizada de Sandman chegará em 15 de julho, sob a forma de áudio drama no Audible, plataforma que vem construindo uma biblioteca de narrativas em áudio e outros conteúdos originais. (A empresa, de propriedade da Amazon, também está preparando novos projetos de autores como Jesse Eisenberg, James Patterson e David Koepp e escalando atores como Christian Slater, Carrie Coon, Aaron Paul e Alicia Silverstone).

A primeira parte da série, que consiste em 20 episódios, se baseia nos três primeiros volumes da graphic novel. No elenco, James McAvoy como o etéreo personagem-título; Kat Dennings como sua irmã espectral, Morte; Michael Sheen como o anjo caído Lúcifer; e Riz Ahmed como o elegante pesadelo Coríntio.

Para Gaiman, que é o diretor de criação e produtor executivo do projeto de áudio, a iniciativa premia sua paciência e teimosia estratégica. No seu modo de ver, a adaptação da Audible não exigiu que ele abrisse mão da audácia, da ambiguidade ou da cativante estranheza dos quadrinhos.

“Eu não queria ver as mudanças que teriam de ser feitas no Sandman para torná-lo palatável a todos os gostos”, disse ele. “Não aparamos as arestas. Conseguimos fazer uma versão do Sandman que é tudo o que queríamos”.

Falando por telefone da ilha de Skye, na Escócia, onde está de quarentena, Gaiman contou como, lá no início, a DC lhe oferecera sua própria revista mensal para promover seu nome enquanto a editora se preparava para lançar Orquídea Negra, um projeto caro que ele vinha escrevendo para a empresa.

“Eles disseram: você tem doze edições – vamos deixar passar um ano antes de cancelar”, lembrou ele.

Gaiman disse que imaginava The Sandman como “uma máquina de contar histórias – algo que eu poderia levar para qualquer lugar”.

Ao centrar a série em um protagonista sobrenatural chamado Morpheus, um imortal também conhecido como Sonho, Gaiman construiu para si mesmo uma saída para ir atrás de narrativas que se encontravam bem distantes do reino das aventuras de super-heróis.

“Posso fazer horror”, disse ele. “Posso fazer fantasia. Posso fazer ficção histórica. Posso fazer ficção científica. Posso voltar até o começo do universo”.

As primeiras edições, que contavam a história da fuga de Morpheus de um longo período de prisão e a reconstrução de seus poderes metafísicos, também traziam aparições de heróis bem estabelecidos da DC, como Batman, Lanterna Verde e Caçador de Marte.

Mas, poucos meses depois, Gaiman estava perseguindo suas próprias musas imaginativas e, às vezes, um tanto sombrias, usando The Sandman para contar histórias sobre uma convenção de serial killers ou sobre um gato que queria remodelar a realidade para deixar os humanos subservientes aos felinos. A série virou um sucesso e vendeu especialmente bem em coleções de graphic novels exibidas nas livrarias tradicionais.

Pouco tempo depois, The Sandman já estava na mira de uma adaptação cinematográfica da Warner Bros., onde Batman havia acabado de ganhar uma franquia. Gaiman relatou uma conversa que teve em 1990 com uma executiva da Warner Bros., a quem ele pediu que não prosseguisse com o projeto, argumentando que a adaptação iria distraí-lo de seu trabalho nos quadrinhos.

“Ela disse: ‘Ninguém nunca entrou na minha sala me pedindo para não fazer um filme’”, lembrou Gaiman. “E eu disse, bom, então sou o primeiro”. O projeto não avançou.

Anos depois, Gaiman foi abordado por Dirk Maggs, então produtor da BBC, interessado em transformar The Sandman num drama para a rádio.

Descrevendo a abordagem que planejava fazer à obra, Maggs disse: “A ideia era evitar que soasse como uma produção refinada da BBC, aquelas coisas com xícaras de chá tilintando e, de quando em quando, uma porta se abrindo para alguém falar com o vigário sobre a morte de um cachorro”. Mas, ainda que Gaiman estivesse intrigado com a ideia, Maggs não conseguiu que seus superiores na BBC aprovassem a proposta.

Embora Gaiman não detenha os direitos sobre Sandman, ele disse que a DC tinha sido respeitosa em consultá-lo sobre quaisquer adaptações que aparecessem.

“Todo mundo na DC entende que é uma coisa minha, que tenho uma identificação com a história e que faz muito mais sentido que eu trabalhe na adaptação, porque aí vai ficar muito melhor”, disse ele. “E eu quero estar a bordo”.

Enquanto isso, Gaiman continuou a trabalhar com Maggs, agora respeitado produtor e diretor de dramas em áudio, nas adaptações de seus romances Neverwhere e Good Omens (que Gaiman escreveu com Terry Pratchett). Cerca de dois anos e meio atrás, com o envolvimento da DC, eles começaram sua tão esperada série de áudio para a Audible.

Para adaptar a série, Maggs voltou aos roteiros originais de Sandman que Gaiman escrevera para artistas como Sam Kieth e Mike Dringenberg, usando esses textos como base para os diálogos dos personagens e a atmosfera dos áudio, bem como para a narração, feita pelo próprio autor.

Repassando os manuscritos de Gaiman, Maggs disse: “É como estar dentro da cabeça dele. Suas descrições de cenas são bastante poéticas, têm uma vibe meio Dylan Thomas”.

McAvoy, que interpreta o evanescente Morpheus, disse que as demandas do papel variavam de episódio para episódio.

“Você não está em busca de uma única característica – você vai ter que dar vida a uma centena delas”, disse McAvoy. “Ele tem uma coisa meio alheia e distante, especialmente no começo, quando está tentando se recompor. Depois, há momentos em que é muito franco e momentos em que é bastante cômico”.

Mas McAvoy, que interpretou personagens sobre-humanos em filmes como Fragmentado e X-Men, disse que atuar em histórias com regras de realidade mais fluidas virou quase um hábito.

“Ganhei muita experiência para dizer: beleza, estamos pulando de um prédio e, na metade do caminho, passaremos por um vórtice até a enésima dimensão, que na verdade é 400 anos no passado”, ele disse. “Eu sei como lidar bem com essas coisas”.

No ano passado, a Netflix fechou um acordo para fazer sua própria adaptação para TV de Sandman, que será dirigida por Allan Heinberg, roteirista de Mulher Maravilha. Não foi anunciada nenhuma data de estreia, nem mesmo elenco. E Gaiman, que é um dos produtores executivos dessa série, mostrou-se compreensivelmente supersticioso e não quis revelar muito. Mas disse que estava grato por finalmente participar de uma adaptação de Sandman “com o orçamento e as capacidades técnicas para fazer tudo do jeito certo – eles estão gastando centenas de milhões e não estamos abrindo mão de nada”.

Embora Sandman agora esteja se juntando a outros de seus trabalhos que já receberam adaptações, Gaiman disse que não está necessariamente com uma sensação de encerramento ou de círculo se fechando. Bem ao contrário: “Parece que estávamos muito à frente do nosso tempo e que esse tempo agora nos alcançou”.

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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