Doce subversão

Julie Gavras explica por que quis fazer Late Bloomers

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2011 | 03h07

Seu pai, Costa-Gavras, foi presidente do júri no Festival de Berlim de 2008 - e atribuiu o Urso de Ouro a Tropa de Elite, de José Padilha. Sua estrela, Isabella Rossellini, presidia o júri da Berlinale este ano, mas achou um tempinho na agenda para promover Late Bloomers - O Amor não Tem Fim. O novo longa de Julie Gavras integrava a mostra Panorama.

O primeiro filme da diretora foi um grande sucesso no Brasil (e no mundo), A Culpa É do Fidel. Late Bloomers volta ao tema da família. "Não vou dizer que é o tema mais importante, mas a família certamente é decisiva na formação da personalidade da gente e também tem uma dimensão social muito grande. Pela família, pode-se refletir a sociedade."

O pai em Late Bloomers é arquiteto, mas, tirando a profissão, Julie admite que se inspirou no pai cineasta. "Muita coisa do personagem de William Hurt vem do meu pai. Pequenos gestos, reações. Conversava muito com Isabella (Rossellini) no set. Ela também teve aquele pai famoso, um dos maiores diretores do cinema (Roberto Rossellini). E Isabella também dirige. Conversávamos sobre o que representa ter pais geniais."

Desde criança, Julie frequentava os sets do pai. Isso desenvolveu seu desejo de também virar diretora. Na trama de Late Bloomers, o pai chega a um momento em que nada mais parece empolgá-lo. O desafio vem por meio de um grupo de jovens funcionários. Eles querem desenvolver o projeto de um museu. Hurt começa a ajudá-los e, de repente, está mais envolvido com eles do que com os filhos. Isabella faz a mãe. Aposentada, cuida dos assuntos do lar. Como lhe sobra tempo ocioso, ela desenvolve atividades voluntárias. Em geral, se decepciona.

"O que há de mais interessante, e já estava no roteiro de Late Bloomers, é o tema do envelhecimento", diz Isabella. "Vivemos numa sociedade da imagem, em que muitas pessoas tentam permanecer eternamente jovens. Não critico ninguém em particular, mas acho triste quando vejo as pessoas tentando, freneticamente, permanecer jovens. O desafio, para mim, é envelhecer com graça, mas sem abdicar das rugas. Elas integram nossas histórias de vida. É disso que trata o filme de Julie, é o que havia de tão fascinante no projeto."

Por que uma diretora ainda jovem - Julie nasceu em 1970 - se preocupa com o tema da terceira idade? "É o caminho natural. O mundo está ficando mais velho. Hoje as pessoas vivem mais. Como não se ocupar do assunto? Uma comédia romântica com jovens seria banal. Com Isabella e William (Hurt), só a presença deles já confere uma história aos personagens. E, depois, o cinema atual é tão formatado para a juventude. Sinto-me subversiva, indo contra a corrente."

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