Mariana Lemos de Moraes/Divulgação
Mariana Lemos de Moraes/Divulgação

Doce anarquia do amor

Pedro Cardoso: escracho em filme com a classe de Domingos Oliveira

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2011 | 00h00

Há quem diga que de perto ninguém é normal. Comentário que pode ser feito de maneira inversa (de perto todos são "normais"), já que normalidade é conceito dos mais relativos. Esse emaranhado de confusões entre a norma e a transgressão são mais notórios no campo sexual que em qualquer outro. Todo mundo sabe que vida sexual humana é um novelo e ninguém precisa ter estudado psicanálise para isso. Mas, se a palavra dos filhos de Freud nem sempre é a última, pode ser útil contar com um psicanalista como conselheiro e fonte de inspiração. Foi o que fez Domingos Oliveira ao tratar de modo ficcional a correspondência de clientes enviada ao psicanalista Alberto Goldin.

O texto virou peça de sucesso e agora é lançado como filme. Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, como afirma Domingos em seu título, e com boa dose de razão. E esses problemas vão desde a sensação de uma mulher de se sentir traída ao saber que o amante usa Viagra à curiosa história do casal cuja vida erótica se revitaliza depois que a mulher é violentada por seu chefe, no fim de uma festinha da firma. Há também a história do homem que, tendo um caso com uma mulher, descobre que sua vocação erótica fica em outra praia. Paradoxos do desejo? Sim. E que estão presentes também nas outras histórias, perfazendo seis episódios perfeitamente encadeados e que terminam pelo hilário epílogo em que o personagem vivido por Pedro Cardoso faz o papel de uma parte da anatomia masculina. Homenagem explícita, claro, ao Woody Allen de Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre o Sexo e Nunca Teve Coragem de Perguntar.

Não é a única referência a Allen, autor de predileção de Domingos Oliveira. Como substrato maior de comunhão entre os cineastas, um fundo de humor inteligente (e erudito), forrado por uma visão realista e um tanto desencantada do mundo. Em outro ponto comum, ambos fazem cinema adulto, o que não é coisa tão comum hoje em dia.

De sua parte, Domingos (pelo menos neste filme) é mais desbocado que o americano. Diferentemente do que acontece em seus filmes recentes mais conhecidos, como Amores e Separações, Domingos ultrapassa os limites da sutileza e entra na grande área do chulo e do escracho. Sem perder a classe.

Como em Allen, a referência ao sexo é feita em palavras e não em cenas. Visualmente, o filme é até pudico. Já o que nele se diz... Chocante? Pode ser, para quem for moralista. O fato é que o brasileiro se diverte bastante com a liberalidade vocabular da sexualidade. A novidade, aqui, é que ela não basta a si só, de maneira, com o perdão do termo, masturbatória, mas se põe a serviço do enredo. Todo palavrão tem sentido e, quando as coisas não são gratuitas, deixam de causar escândalo para se tornarem fonte de graça e inteligência.

Nem tudo é perfeito. A qualidade da imagem, por exemplo, deixa a desejar. A granulação é excessiva e o filme às vezes parece escuro demais. No entanto, a movimentação e o posicionamento da câmera são ótimos, e a mescla entre filmagens e inserções dos mesmos trechos em montagens teatrais traz um encanto adicional. Há filmes que tentam esconder sua origem teatral. Domingos faz o contrário - a enfatiza. E assim, fazendo, como diz, faz uma arte mais nova, o cinema, prestar homenagem ao seu ancestral antecessor, o teatro.

Parte do charme de Todo Mundo Tem Problemas Sexuais está na utopia sensual que tempera o desencanto do mundo - a de que qualquer forma de afeto é melhor do que nada. Qualquer maneira de amar vale a pena, como diz a canção de Milton Nascimento, com toda a razão, aliás.

TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS

Direção: Domingos Oliveira.

Gênero: Comédia (Brasil/ 2008, 80 minutos). Censura: Livre.

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