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Doa a quem doar

Espero que não caia sobre mim um raio, mas hoje acordei ansiando por um incêndio.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2014 | 02h06

Incêndio seletivo, se isto existir, cujas chamas sejam dotadas do poder de discernir aquilo que vale preservar. De todo modo, um "pavoroso incêndio" - verbete inscrito no meu O Pai dos Burros - Dicionário de lugares-comuns e frases feitas, cuja nova edição, substancialmente ampliada, deve sair no mês que vem. Fim de comercial.

Um incêndio, eu dizia, capaz de fazer por mim aquilo de que não dou conta: desbastar para valer a babel da minha biblioteca. Se não chamo você para comprovar é porque me resta um pouco de vergonha. Custo a crer que sou filho de mãe que encapava os volumes e punha etiquetas nas lombadas.

Houve tempo em que a livralhada respeitava os limites do escritório. Aos poucos, porém, foi se esparramando pelo apartamento. Só não chegou ainda ao banheiro e à cozinha, mas não garanto nada. Se algo não for feito para estancar a inundação, dia virá em que, esgueirando-me entre himalaias de papel, terei que sair porta afora, expelido pela elefantíase bibliotecal.

Que fazer?, perguntaria Lenin. Se ao menos o dono desta montoeira não a engordasse com seus próprios escritos... Chego a lamentar que ainda não tenham inventado o livro biodegradável (em sentido figurado já existe, e com que fartura!). Penso no camarada que, nos arremates de um casamento, ficou sem metade de sua biblioteca, e que hoje, outra vez afogado em brochuras, lamenta não ter de quem se separar.

Tenho inveja de quem só entroniza algo nas estantes se algo sair. Ou de quem se desfaz de seus livros sem maior lamentação, com a ajuda dos roto-rooters editoriais que são os sebos. Parêntese: ainda hei de fazer lançamento num sebo. Para queimar etapas. Vantagem para o comprador: livro, nesse tipo de comércio, em geral já vem lido.

Mais de uma vez me enchi de ânimo para desbastar minha biblioteca. A coisa vai bem até você topar com um romance esquecível - e eis que, a caminho do monturo da literatura, a mão se detém, pois os olhos bateram na dedicatória enviesada (reparou que pouca gente faz dedicatória na horizontal?) de alguém muito querido. Ou não tão querido assim, mas cuja lembrança arrasta outras, essas sim, dignas de guardar - e lá se vai a literatura anêmica de volta à prateleira.

Em duas ou três ocasiões, fechei o coração ao sentimentalismo e ergui na sala algumas pilhas de volumes que, primeiro, tentei empurrar, de graça, em bibliotecas - para invariavelmente esbarrar numa viscosa má vontade que me fez desistir.

Aí arregimentei amigos para um open door saideiro. Os garis literários, porém, alegando não terem como carregar, limitaram-se a catar migalhas. Nenhum se interessou por O Patinho Feio, de nada adiantando eu informar que a peça de Coelho Neto se baseou na história real de um médico belo-horizontino cujo bisturi, quase um século atrás, fez certa Emília virar Davi.

Ninguém se sensibilizou tampouco com a vida edificante de Elisabeth Leseur, relato que li na juventude, no que pode ter sido um milagre da beata francesa. Também não mudou de mãos um manual do Dr. Fritz Kahn em que mais de uma geração se abeberou de instruções para uma vida sexual sadia, calhamaço do qual decidi me desfazer porque para mim já ficou meio tarde.

Em companhia de outros enjeitados, Coelho Neto, Elisabeth Leseur e o Dr. Fritz Kahn foram devolvidos aos ácaros da biblioteca. Mas não perdem por esperar: estou programando nova liquidação (anote aí, e trate de trazer sacola grande). Prometo endurecer meu coração, doa a quem doar, num esforço para me desapegar de livros bons que, a esta altura, já não teria mesmo tempo de ler. Alternativa 2: recorrer a um sebo, sabendo de antemão que comerciantes desse ramo são traças esclarecidas - não é qualquer literatura que eles vão traçando.

Se nada disso funcionar, restará o recurso extremo do incêndio, ecumênica fogueira em que tudo arderá - até mesmo, quem sabe, um dono de biblioteca incapaz de desapego. Ser cremado junto com a bondade ostensiva da beata Elisabeth e a sacanagem família do dr. Fritz, já pensou?

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