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Humberto Werneck
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Do vinho para a água

No passo em que vamos, não é impossível que na próxima vez Jesus Cristo seja solicitado a transformar vinho em água - e, ao menos em São Paulo, merecerá aplausos mais entusiásticos do que recebeu nas Bodas de Caná, quando fez operação inversa.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2015 | 02h07

Sim, parece vir aí um tempo em que os enólogos já não terão onde meter o nariz. O prestígio de que hoje gozam vai se transferir para os provadores de água, chamados aquólogos (criemos desde já a palavra), com direito a sacolejo e cafungada na taça do mais do que nunca precioso líquido, para não falar na judiciosa bochechada com os olhos revirados para cima. Em matéria de lugar-comum, aliás, já que desencavei precioso líquido, precisaremos remanejar palavras, de modo a ajustá-las à realidade de um mundo em que as coisas terão mudado do vinho para a água.

Hoje apenas uma esquisitice parisiense, os bares para abstêmios, ou seja, especializados em inumeráveis tipos de água, haverão de se multiplicar, e não só na capital francesa.

- A carta de águas, por favor - sussurraremos ao garçom, e, como no tempo do vinho, à mesa não serão poucos os que, discretamente, passarão atestado de pobreza ao darem preferência à coluna dos preços.

- Turvo ou translúcido? - indagará o garçom.

- Qual seria uma boa opção de turvo?

- Temos um Sabesp safra 2015, opaco e túrbido - recomendará o aquólogo, para em seguida derramar detalhes, explicando que o néctar de que fala não é um qualquer, preguiçosamente coletado na superfície de rios e lagoas: profundo em mais de um sentido, ele foi envelhecido por décadas no segundo volume morto da Cantareira. E pensar que o tesouro lá estava, qual pré-sal, ignorado por todos até que o governador, numa atitude pioneira, anunciasse, meses atrás, sua decisão de "sugar o volume morto".

- Não se trata do convencional H²O - dissertará nosso expert aos ignaros da aquologia, chamando a atenção para os tons amadeirados do Sabesp 2015, resultantes de seu prolongado convívio, no lodo da represa, com o que outrora foram árvores. Já os tons ferruginosos, esses têm origem na intimidade do líquido com carcaças de automóveis que, já depenados, donos de desmanches costumam desovar em nossos reservatórios, sem saberem o quanto com isso contribuem para a elaboração de refinados néctares da aquologia.

E não importa, nesse caso, se os enferrujados despojos foram um dia reluzente joia proveniente de mansão do Jardim Europa, ou, na outra ponta, proletária caranga pé de boi egressa da mais castigada periferia. Como nas entranhas do cemitério ou no braseiro do crematório, filosofará o aquólogo, também sob as águas tudo se nivela: por já não terem razão de ser, também os pedigrees automobilísticos se afogam, e pode bem uma sambada Brasília 1974 intervir decisivamente na maturação de bebida mais apreciável do que seria capaz um Jaguar blindado.

Em datas festivas, como num aniversário da cidade de São Paulo, o Sabesp 2015 poderá ser precedido de uma flûte de espumante - recolhido, este sim, na superfície das águas, naqueles pontos em que o Tietê parece estar coberto de volátil algodão.

Mas calma lá, nada disso é para já, deve este cronista esclarecer aos sôfregos, aos apressadinhos. Nada nos garante que o cenário acima esteja prestes a se concretizar. Seria preciso, antes, que estivéssemos a viver uma grave crise de abastecimento de água, panorama que justificaria, para começar, a imposição de um racionamento.

Há quem diga que já estamos lá. Quá! Podem esses arautos do apocalipse tirar o cavalo da chuva, essa que em sentido literal se obstina em não cair sobre o verão paulistano, ou de não cair onde deveria: a crer no que afiançam as autoridades, e por que não creríamos?, racionamento é um papo tão furado quanto essas tubulações mal conservadas que a gente vê a esbanjar água pela cidade.

Sem estresse: o governador já não nos explicou que estamos em regime de mera "restrição hídrica"? Num país em que morrer é "ir a óbito" e velhice está em vias de virar "melhor idade", não há nada que não se ajeite no gogó. Comemoremos, pois. Com vinho, antes que vire água.

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