Do verso erudito ao samba

Vinicius de Moraes, que morreu há três décadas, foi homenageado por Drummond de Andrade[br]em depoimento ao caderno

Thereza Cesário Alvin, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

24.9.1972

O último livro de Vinicius de Moraes data ainda de 1966: Para uma menina com uma flor. A partir daí, com exceção de um livro de poemas infantis, A Arca de Noé, não fez nada de novo para ler, só para ouvir.

Os versos, porém, continuavam brotando e se acumulando na gaveta. Vinicius encerrou, em agosto, uma temporada de grande êxito num teatro do Rio e embarcou para a Argentina com Gesse, sua mulher, Toquinho, seu parceiro, e Marília Medalha, sua intérprete. Depois de cantar para os argentinos, tomou rumo da Europa, onde o esperavam alguns "shows" e o lançamento de três discos.

Não se trata, portanto, de abandonar a poesia. Mas deve haver algum motivo forte para essa volta do poeta à antiga forma. (...)

Vinicius confirma o lançamento de dois livros mas diz que um deles não está pronto e só vai sair em 1973, em duas edições diferentes: uma de luxo, ilustrada por Carlos Scliar e editada por ele próprio, e outras da "Editora Sabiá". Serão cerca de 60 poemas inéditos reunidos sob o título de Roteiro Lírico e Sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde nasceu, vive em trânsito e morre de amor o poeta Vinicius de Moraes. (...)

E OUSOU VIVER NO SIGNO DA PAIXÃO. "Confesso - por que negar? - que tenho inveja do Vinicius. Foi ele o único poeta brasileiro que conseguiu transitar da poesia culta para a letra de samba, sem perda da substância artistica e conservando intacto o lirismo fundamental. E é também, numa perspectiva humana, o único poeta brasileiro que ousou viver segundo o signo da paixão.

Vale dizer, da poesia em estado natural."

Quando Vinicius de Moraes souber quem fez esta "confissão" escreverá, certamente, um dos seus emocionados poemas. Seu autor, além de ser quem é - o maior poeta vivo do Brasil - costuma se dizer "alergico" às entrevistas e se negar, de modo gentil, mas energico, a dar qualquer declaração à imprensa.

Quebrando esse habito, mantido durante os seus 70 anos de vida, quase completos Carlos Drummond de Andrade também prestou sua homenagem ao poeta Vinicius de Moraes, lembrando uma referência a seu respeito encontrada na prosa de outro poeta maior: Manuel Bandeira.

"Ele tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a pericia dos parnasianos (sem refugar, como estes as sutilezas barrocas) e finalmente homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, o esplendido cinismo dos modernos" (...).

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