Do underground ao teatro Sérgio Cardoso

A peça Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada, texto e direção do dramaturgo Newton Moreno, estreou no ano passado sem alarde para o desafio a que se propunha: o de inaugurar um novo espaço no Tusp, na Rua Maria Antônia, no ingrato horário da meia-noite. Algumas semanas após a estréia, a montagem despontava como um sucesso de público que a sustentou por uma temporada de sete meses. Não poucas noites os ingressos esgotavam-se diante de uma fila inconformada A montagem, que volta nesta sexta-feira ao cartaz, encontra-se novamente diante de um desafio: o de emplacar as sessões de meia-noite do tradicional Teatro Sérgio Cardoso, que nunca abriu seus palcos para encenações neste horário. Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada é um espetáculo de 50 minutos, composto por uma série de cenas curtas que navegam por um tema comum - o universo homoerótico. Ou, como ressalta o autor, uma radiografia, às vezes dramática, outras cômicas, dos diversos aspectos do universo gay atual. "O que me surpreendeu no espetáculo é que ele não se limitou a dialogar com um público específico", diz Moreno, 33 anos. "Erroneamente, eu pensei que fôssemos fazer sucesso entre a comunidade gay, não só pelo teor das histórias, mas também por termos estreado no centro e em um horário incomum. Mas nós atraímos, acima de tudo, um público interessado em uma montagem alternativa." Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada focaliza alguns elementos comumente associados à realidade homossexual, como a intolerância, a violência homofóbica, o preconceito em relação aos aidéticos e a postura conservadora da Igreja católica em relação às práticas homoeróticas. Enfileirados desta maneira, a simples menção destes ingredientes poderia sugerir uma receita panfletária ou reivindicatória, uma saída aparentemente cômoda para lidar com tamanha aspereza. Mas não. Moreno optou por pavimentar um caminho no qual transitam juntos o lirismo (ao abordar a fragilidade de um relacionamento entre gays na terceira idade), o escracho de final trágico (no esquete de abertura, em que um personagem caricato praticamente contracena com um locutor de rádio) e o incômodo, representado pela revolta de um paciente portador do vírus da Aids. "Tudo isso faz parte de um universo ficcional", diz o autor. "A peça tem um tom de crônica documental. Nenhuma das cenas foi baseada em histórias reais, e sim na observação da realidade." A pluralidade dos temas focalizados na peça acaba sendo amarrada por uma cena repetida cinco vezes, em que a impossibilidade de um mesmo beijo é mostrada em diversos períodos da história brasileira. O texto é idêntico, mas Moreno consegue o prodígio de tornar capa repetição mais hilária que o esquete anterior. Serviço: Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada. Sextas e sábados, à meia-noite, no Teatro Sérgio Cardoso(Rua Rui Barbosa, 153, tel.: 288-0136). Ingresso: R$ 15

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