Do tamanho do choro

Brasília abre novo centro dedicado ao gênero, projetado por Niemeyer

RAFAEL MORAES MOURA, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h09

Se os traços de Oscar Niemeyer constituem a identidade visual desse misto de museu a céu aberto e capital federal chamado Brasília, o chorinho é a trilha sonora da cidade. Sua história por aqui passa por muitos nomes, paixões, lutas - e um endereço certo: o Clube do Choro, casa de cultura que por mais de três décadas recebeu nomes consagrados da música instrumental brasileira em um espaço desajeitado. Na prática, era um vestiário de um centro de convenções, não condizente com sua relevância, e marcado por uma pilastra no meio do público, prejudicando a visão de quem assistia aos shows. Foi com alegria e certo alívio, portanto, que os brasilienses lotaram na última quinta-feira o novíssimo Espaço Cultural do Choro, que chega para corrigir uma injustiça histórica, zelar pela difusão do gênero no País e firmar-se, desde já, como marco cultural da cidade.

O projeto da nova sede, situada ao lado da antiga, no Eixo Monumental (área central de Brasília), ficou a cargo justamente de Oscar Niemeyer, numa dessas homenagens que não poderiam ser mais convenientes. Foi um presente do arquiteto, admirador de chorinho e do clube, que passa agora a contar com uma sala de espetáculos de 560 metros quadrados onde cabem sentadas 420 pessoas (antes, a capacidade era de 250). Na inauguração, couberam bem mais, sentadas e espalhadas em pé, entre músicos, estudantes, populares e autoridades da República, como o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cezar Peluso, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e a ministra da Cultura, Ana de Hollanda.

"O sucesso do Clube do Choro de Brasília decorre da qualidade do melhor produto do País: a música brasileira. Fico muito emocionado com essa sala ampliada, a casa cheia, sem aquela pilastra", diz o presidente do clube, Henrique Lima Santos Filho, o Reco do Bandolim. O tal vestiário foi palco de 1,5 mil shows para cerca de 500 mil pessoas, guarda carinhosas lembranças, mas a precariedade das instalações incomodava Reco e frequentadores. Houve de tudo: rompimento do sistema de esgoto, furto de equipamentos, infiltrações e até moradores de rua se abrigaram por ali.

"As instalações antigas eram simpáticas, mas acanhadas para a grandeza da escola. Agora o choro tem um espaço à altura dele. Tem tudo para dar certo", disse Peluso, que costuma acompanhar as apresentações de chorinho uma vez por mês.

As antigas instalações deverão se transformar no Centro de Memória e Referência do Choro, apoiado pela Universidade de Brasília (UnB) e pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que ajudarão na pesquisa. A ideia é disponibilizar a pesquisadores e à comunidade, de forma geral, vídeos, discos e documentos sobre esse estilo musical.

"Você acha que os norte-americanos um dia vão classificar Washington ou Nova York como capitais do samba? Sou a favor de delimitarmos nosso território cultural e cuidarmos das nossas tradições. Brasília é a capital do choro", defendeu Reco.

As raízes do choro na capital remetem aos primeiros funcionários públicos que deixaram o Rio de Janeiro para morar no poeirão do planalto central. Eram próximos, amigos e talentosos, e se apresentavam nas casas de conhecidos. Com o sucesso das exibições em espaços públicos, o então governador do DF Elmo Serejo cedeu o espaço do vestiário e foi fundado o Clube do Choro de Brasília, em 1977. Hoje, é "patrimônio imaterial" da cidade, conforme tombamento do governo local.

A obra do espaço cultural custou R$ 5 milhões, bancados pelo Palácio do Buriti. É também a nova casa da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, a primeira do gênero no País, que ampliará sua capacidade para receber até mil alunos. Durante os shows que marcaram a inauguração da sede, Rabello recebeu diversas homenagens, tendo a sua imagem colocada em um quadro no palco. O violonista foi um dos idealizadores da escola.

"Vejo a marca de Brasília na arquitetura e no chorinho. Fico felicíssima com o novo espaço cultural, que tem tudo a ver com a cidade", disse a ministra da Cultura, Ana de Hollanda. Para o bandolinista Armandinho Macedo, que subiu ao palco na quinta-feira passada, o Espaço Cultural do Choro consagra a vocação de Brasília como capital do choro. "O Reco profissionalizou o choro, deu-lhe projeção, visibilidade. Com este espaço, Brasília torna-se, de fato, a referência brasileira no chorinho. É o casamento perfeito." Que dure para sempre.

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