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Do que você se arrepende de 2016?

Em 2017 eu quero dar mais atenção à Dona Rita. Tenho a melhor avó do mundo

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2017 | 02h00

Primeiro dia do ano. Mais um ano. Mais um dia. Mais novos velhos planos nesse primeiro dia do ano. Mais um dia para refletir sobre o ano. Mais um ano para errar em tantos dias. E talvez o erro seja pensar no ano como algo para olhar somente daqui para frente ao invés de olhar os dias que ficaram para trás. 

É fácil olhar para páginas em branco e imaginar novos lindos desenhos. Mas a verdade é que os dias são páginas em branco, mas nós não o somos. Nós somos páginas usadas, rascunhos, frases apagadas, frases reescritas. Nós somos as mesmas velhas pessoas de sempre. Que cometem os mesmos erros, insistem nas mesmas coisas, trilham os mesmos caminhos.

Talvez a questão seja essa. Ao invés de olhar para frente e pensar no que fazer, olhar para trás e pensar no que não fazer. Se nós pudéssemos caminhar pelos dias de 2016, o que faríamos diferente? Quais foram os erros de 2016 para não repetir em 2017?

Eu começaria com o Chicão. O Chicão, meu amigo de faculdade, mandou uma mensagem para marcarmos um almoço quando eu estava no Brasil. Eu queria, mas estava com trabalho até o pescoço e achei melhor deixar para outra vez. O Chicão morreu do coração há dois meses. Em 2017 eu não quero deixar meus amigos para depois. Eu não quero entregar meus trabalhos no prazo e perder mais um desses incertos prazos da vida.

Eu também não quero mais adiar a compra da televisão da Maria. A Maria, que ajudou meus pais a cuidar de mim e dos meus irmãos por tantos anos, tem 72 anos, câncer no intestino e é uma das maiores paixões que tenho na vida. Ela estava juntando dinheiro para comprar uma televisão, mas o câncer não está colaborando. Eu estou sempre “para comprar” a televisão, mas sempre me atrapalho com minha contabilidade e com a logística de levar a televisão até o Paraisópolis. Eu não quero adiar quem eu amo em 2017.

Em 2017 eu quero dar mais atenção à Dona Rita. Tenho a melhor avó do mundo e moro a 8 mil quilômetros de distância dela. Pago uma conta mensal para ligar para o telefone da sua casa, mas nunca consigo ligar tanto quanto gostaria. Às vezes a culpa é do wifi, às vezes é da falta de bateria e quase sempre é culpa do trabalho. Em 2017 eu não quero que o wifi, a falta de bateria e o trabalho permitam que a distância entre nós duas seja ainda maior do que esses 8 mil quilômetros.

Também tem o Raul. O Raul é filho de uma das minhas melhores amigas. Em novembro liguei para a Carol perguntando se ele ainda gostava de Tartarugas Ninja e Star Wars para comprar um presente. A verdade é que eu não sabia se ele gostava de nada disso. Eu presumi porque ele é menino. A verdade é que eu nunca tive tempo suficiente com o Raul para saber do ele gosta. E eu virei a tia que dá uma nota de 50 reais porque é mais fácil. Em 2017 eu quero saber o que dar de presente pro Raul. Quero até poder dar a nota de 50, mas fazer alguma ideia do que ele fará com aquilo. Em 2017 eu não quero ser a tia distante da nota de 50, quero ser a tia presente da nota de 50.

Também tem meu corpo, que teve que processar mais álcool do que deveria em 2016. E meus olhos, cujo grau de astigmatismo parece ter aumentado, mas que aguardaram em 2016 porque não houve tempo para tratar desta bobagem que é a visão. E minha barriga, que me incomoda há tantos anos, mas que em 2016, assim com em 2015 e em todos os anos anteriores foi agraciada com mais carboidrato e sofá do que com fibra e abdominais. Em 2017 eu não quero continuar testando até onde meu corpo aguenta, nem até onde eu aguento meu próprio corpo.

No fim das contas, não é sobre 2017. É sobre 2016. E sobre todo o passado, todos os hábitos, todos os vícios. De nada adiantam as páginas em branco se a gente não se obrigar a desenhar com outras cores. 2017 precisa ter outras cores.

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