J.R.Duran/Divulgação
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Do porão, mas com glamour

Com show no Baixo Augusta, dupla faz versões charmosas de temas pop ironizando o underground

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Ele vive encarnando David Bowie e já se aventurou na poética enfumaçada de Tom Waits, ao lado de Cida Moreira. Ela tira onda de Amy Winehouse e é fã de grandes divas do soul. Experiência em covers, com notívagos e outsiders da arte André Frateschi e Miranda Kassin têm bastante. Agora o casal lança o primeiro CD em dupla, Hits do Underground, ironizando com um certo glamour o universo do pop independente contemporâneo. Com ares de celebração, eles fazem show de lançamento hoje no Comitê, no Baixo Augusta, região badalada da Pauliceia que a galera homenageada no disco frequenta.

Vários deles, aliás, participam do show: Hélio Flanders (Vanguart), Vanessa Krongold e Mauro Motokie (Ludov), Peri Pane (O Degrau) e Maurício Pereira (Os Mulheres Negras). Outros estão na banda que acompanha a dupla. São Fábio Pinch (guitarra), produtor do Ludov, Piero Damiani, tecladista do Numismata. Rodrigo Fonseca, baixista do Mamma Cadela e outras bandas, e Angelo Kanaan, baterista do Chimpanzé Clube Trio. A supervisão artística é de Monique Gardenberg.

Geração internet. Além das bandas citadas acima, eles cantam outros bacanas da cena independente: Curumin, Mombojó, Cérebro Eletrônico, Rubinho Jacobina, Wado e Wander Wildner. Só Tetele, da extinta dupla formada por Mauricio Pereira e André Abujamra na década de 1980 é exceção nesse elenco, como explica Frateschi. "A ideia inicial era gravar só músicas da geração dos 2000, da internet, mas não podia deixar de lado Os Mulheres Negras, que são meio precursores dessa história e me influenciaram muito."

Com 11 faixas, o CD, bancado do próprio bolso, deixa um gosto de "quero mais". A intenção deles é que venham outros volumes. Entre as melhores deste primeiro estão Magrela Fever (Curumin), Dê (Cérebro Eletrônico), Semáforo (Vanguart) e 220V (O Degrau), com uma cara de new iê-iê-iê, Deixe-se Acreditar (Mombojó) e a balada Fita Bruta (Wado).

Entre elas há canções que não foram "verdadeiros hits do underground", como Zeitgeist (Numismata) e 220V, um dos achados do criterioso repertório. E com Semáfaro, o Vanguart já chegou a um patamar acima da linha do porão. O produtor do CD, Plinio Profeta, é um nome igualmente representativo dessa cena, com trabalhos em discos de Tiê, Lucas Santtana, Katia B., Lenine, Davi Moraes, Edu Krieger, Pedro Luís e a Parede.

Desafios. Embora soltem a voz com grande desenvoltura, revelando intimidade com o repertório e imprimindo personalidade própria às interpretações, Frateschi e Miranda dizem que as coisas não rolaram tão facilmente quanto parece. Deixando o inglês de lado, eles cantam pela primeira vez em português e em estilo mais contido (mas não muito) do que o habitual. Atores e cantores expressivos, de vozes potentes, eles costumam "soltar os demônios", mas enfrentaram desafios para se adaptar a outro estilo e achar o tom certo na combinação dos timbres vocais.

Nesse aspecto, foi até benéfico para eles que o projeto tenha demorado a engrenar, desde o início de 2009. "Foi um tempo necessário pra gente se acostumar com a ideia e deglutir essas músicas", diz Frateschi. "Eu me estranhei cantando em português e ficava sempre com um pé atrás para não parecer cafona ou de seguir uma linha das cantoras brasileiras, que fazem todas o mesmo estilo. Não queria parecer muito suave", conta Miranda. "A gente procurou fazer um disco com glamour pop, mas com nossa cara rock"n"roll", diz.

Passada a crise de identidade antes das gravações, ela demorou três meses para conseguir ouvir o resultado, encarando uma espécie de "depressão pós-parto". Mas depois aprovou. Daqui a um mês o disco sai em vinil. A espirituosa brincadeira do título (afinal, o underground não tem hits) vai ampliar a charmosa ironia.

ANDRÉ FRATESCHI & MIRANDA KASSIN

Comitê. Rua Augusta, 609, tel. 3237-3068.

Hoje, à meia-noite. R$ 30

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