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Do palácio ao xadrez

O cronista fez o trajeto que muitos gostariam de reservar a alguns de nossos governantes

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2017 | 03h00

Era um compromisso de trabalho, um tanto bizarro, é verdade, entre outros mais convencionais que me levaram a Minas, alguns dias atrás – e lá fui eu, em amável companhia, rumo à penitenciária, na região metropolitana de Belo Horizonte, lamentando apenas que a agenda, naquele abafado começo de tarde, não tivesse incluído uma soneca no hotel.

O compromisso anterior, de manhã, tinha sido no Palácio da Liberdade, antiga sede do governo de Minas, hoje convertida em museu. Em questão de horas, transitei do palácio ao xadrez – o exato percurso que boa parte da população brasileira gostaria de reservar a tantos governantes.

Sem nada dever à lei, ali estava este cronista atravessando intimidador aparato de segurança, a poucos passos de um grupo de homens fardados, mais do que isso, blindados, rostos praticamente encobertos para inutilizar esforços de identificação, carregando armas pesadas e, no uniforme, as iniciais do Grupo de Intervenção Rápida. Sou do tempo, pensei, em que estas três letras designavam exclusivamente uma raça de boi zebu.

Rotina, aquele desfile de policiais? Ou teria a ver com o fato de que, horas antes, baixara sobre a penitenciária um clima de trepidante inquietude, pois, sussurrou alguém, um detento teria se matado? Nada do que eu tinha sob os olhos me permitiria pensar num matadouro como Pedrinhas, no Maranhão, mas presídio é presídio, e a nenhum deles faltam cotas, maiores ou menores, de pavor e susto, eventualmente de mão dupla. Em escala modesta, pude testemunhar, meio século atrás, a ebulição intramuros que tomou conta dos policiais do Dops, carceragem onde eu, a contragosto, pousava, ao se saber que lá fora havia passeata de estudantes para exigir a libertação dos colegas.

Após passar por vários controles e subir um lance de escadas, senti alívio ao ser levado até uma sala onde nos aguardava um grupo de detentos, participantes da Roda de Leitura, programa criado para proporcionar ganhos que não se resumem a descontos na pena a cumprir. A visita tinha a ver com os 115 anos de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, comemorados naquele 31 de outubro, esplêndido pretexto para que se tentasse entabular conversa na moldura maior dos poderes da literatura.

Lá estive por uma hora, com o coração na boca, o tempo todo me perguntando se, para a pequena assistência, no início apática, faria algum sentido ouvir a parolagem daquele encanecido forasteiro. Quantos não teriam simplesmente caído fora, como em geral ocorre nos ambientes em que alguém deita falação, não se tratasse ali de uma cadeia? Uns poucos, a partir de certa altura, tomaram a iniciativa de se manifestar. Nem mais nem menos, constatei, do que vejo acontecer na maioria dos auditórios.

Não sei se o papo com uma roda de detentos foi para eles de alguma utilidade. Captei, nuns tantos olhares, um brilho de interesse, ou de curiosidade, na pior das hipóteses moderado fastio, diante do que tentei dizer sobre a aventura libertadora da leitura e da escrita. Três ou quatro, vivazes, soltaram o verbo, falaram de si, fizeram perguntas. Mas quem sabe o que vai nas mentes e nos corações?

Tudo o que posso afirmar é o que está do lado de cá: a força e riqueza da experiência, para mim inédita, de encarar um tipo tão peculiar de plateia, e a ela tentar transmitir minha inoxidável paixão pela coisa escrita ou a escrever. É lugar-comum (logo eu, autor de uma coletânea de clichês, O Pai dos Burros...), mas não encontro outra forma de comunicar uma certeza que carrego desde então: o contato com aquela roda de leitura foi, para mim, um acontecimento transformador. Achava que ia dar alguma coisa, e saí acrescentado.

O parágrafo anterior faz parte de um depoimento que só mais tarde me saiu, pois na hora, emocionado, não fui capaz de palavra. O engasgo, que persiste, tem a ver com algo que se seguiu à Roda de Leitura, a partir do momento em que, terminado o papo, baixou bem-vinda distensão. Em boa hora, o pessoal do Servas – o Serviço Voluntário de Assistência Social, que, com apoio de algumas entidades, toca o programa – fez circular uma cesta de pães de queijo e copos de sucos de frutas.

E eis que, em meio à generalizada mastigação, um daqueles moços de uniforme rubro fez saber, de modo aparentemente casual, que há nove anos não comia um pão de queijo.

Em nenhum lugar está escrito que cabe ao Estado prover direitos humanos mastigáveis não essenciais, como o pão de queijo, na dieta dos detentos. Talvez a revelação não houvesse batido tão forte em mim se, na manhã do mesmo dia, eu não tivesse lido sobre mordomias de um ex-governador já pesadamente condenado. Não havia, no noticiário, referência a luxos como o pão de queijo, mas informou-se que a cela do potentado decaído, num presídio carioca, oferecia confortos básicos como DVD, Home Theatre e uma TV de desmedidas polegadas.

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