Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Do moderno ao arcaico, instalação de Henrique Oliveira explora a passagem do tempo

Artista cria para o MAC-USP obra que remete a uma caverna

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2014 | 02h12

Paredes de um cubo branco vão se transformando, aos poucos, em corredores de alvenaria popular; em seguida, em caminhos de taipa; até se metamorfosearem em uma caverna de tapumes. No final do percurso, estranho e labiríntico, encontram-se grandes galhos de uma árvore - a instalação Transarquitetônica, que Henrique Oliveira criou especialmente para o prédio anexo do Museu de Arte Contemporânea da USP, é um percurso de passagem do tempo, uma narrativa linear.

"Numa ponta, você tem uma ideia de arquitetura moderna, de um espaço neutro, como um corredor de hospital, que representa o momento contemporâneo. Do outro, os galhos representam a primeira moradia do homem-macaco, anterior ao homo sapiens", descreve o artista. Ele recusa o termo monumental para definir sua obra, mas ela é um vultoso corpo de cerca de 70 metros de comprimento pelo qual o visitante é convidado a adentrar, percorrer pela própria experiência.

Ou, por outro lado, o espectador pode contemplar a instalação de fora, do extenso primeiro andar do espaço expositivo. Dali, Transarquitetônica é vista como um "objeto" orgânico "contínuo", que parece ter-se acomodado, lentamente, na construção original do arquiteto Oscar Niemeyer, uma grande sala longitudinal branca, de 1.600 m², pontuada por 13 colunas.

No inevitável símbolo modernista, o novo trabalho de Henrique Oliveira é mais que a criação de um corpo cavernoso, feito com os tapumes que já são sua técnica característica. A obra do artista, erguida durante dois meses e que consumiu orçamento de R$ 700 mil, ganha outras camadas, ousadas. Torna-se, também, uma reflexão sobre arquitetura, com ramificações interpretativas de ordem política, crítica.

"É possível ver o trabalho como uma coisa que começa com um cubo branco, com esse idealismo da forma (a arquitetura branquinha para ser vista) que se liga à ideia de uma cultura que se faz na modernidade e vai se ramificando para formas de moradia populares que são a realidade", diz Henrique Oliveira, que já tinha projeto antigo de misturar tipos de construções diferentes em uma grande instalação. "Se você pensar em Brasília, a cidade foi concebida para ser aquela coisa monumental, limpa e plástica, mas toda uma periferia foi se desenvolvendo em volta." "O Brasil é um pouco isso: a distância entre os ideais e o que acontece na maior parte do País é muito grande", continua o artista, convidado no ano passado a criar um trabalho para o anexo do MAC-USP.

Como ele conta, já lhe foi questionado se sua escolha por usar os tapumes em suas instalações tinha como ensejo fazer menção a favelas. É verdade que as lascas de compensado descartável - "superbarato, de pouca durabilidade" - que utiliza em suas obras já podem ser consideradas um material tipicamente brasileiro. Mas, na verdade, Henrique Oliveira chegou a esse elemento por intermédio de sua produção como pintor. "Sempre tive uma atração por fazer uma pintura mais visceral ao usar a madeira", afirma. "Os compensados eram cor-de-rosa, me lembravam pele, carne."

Transições. "Sou pintor que não faz só pintura. Mesmo quando o meu trabalho está nessa dimensão, em um espaço como este, com essa referência arquitetônica e escultórica forte, ele também tem situações pictóricas nas madeiras, cores, texturas", expressa. Aos 40 anos, o artista já é um dos mais destacados da cena brasileira, com trajetória de alcance internacional.

Em 2013, ele criou a instalação Baitogogo para o Palais de Tokyo, em Paris (e uma obra sua ainda está em cartaz no local), além de ter exibido suas criações, recentemente, em instituições de várias partes do mundo. "Meu trabalho funciona bem como imagem. Ele pode ser compreendido num nível profundo, mas também qualquer pessoa vem e se relaciona com a obra. Não sei se é bom ou ruim, não importa. Acho interessante que fale também ao público de uma maneira geral, não é cifrado, é uma coisa mais democrática", analisa Henrique Oliveira.

O Museu de Arte Contemporânea da USP passa, na verdade, por momento de transição. Termina oficialmente na terça-feira a gestão de Tadeu Chiarelli à frente da direção da instituição. O museu indicou o professor Hugo Segawa, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da universidade, para o cargo, mas sua nomeação ainda não foi homologada.

Tadeu Chiarelli, que promoveu a transferência do MAC para sua nova sede no antigo prédio do Detran, assina a curadoria de Transarquitetônica, de Henrique Oliveira. Aliás, é um projeto de sua gestão dedicar o anexo do museu à exibição de monumentais obras criadas especialmente para o local (a anterior foi realizada por Carlito Carvalhosa).

Atualmente, com essa inauguração, o MAC exibe 17 mostras simultâneas. No primeiro andar do anexo, ainda, foi aberta a exposição Vânia Mignone - Cenários, com 58 trabalhos da pintora e gravadora selecionados pela curadora Ana Magalhães. Vale também citar a exibição, no oitavo andar do edifício principal, de Pintura Como Meio: 30 Anos Depois, com curadoria de Katia Canton. É uma homenagem à mostra realizada no museu em 1983, na qual a historiadora Aracy Amaral apresentou, então, os jovens Sergio Romagnolo, Leda Catunda, Ciro Cozzolino, Sergio Niculitcheff e Ana Maria Tavares.

Tudo o que sabemos sobre:
Henrique OliveiraMAC-USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.