Nilton Fukuda/ Estadão - 23/2/2020
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Gilberto Amendola
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Do lado de lá do bloco de carnaval

Os moradores de todas as quadras se emocionaram, do jeito que só quem já morreu sabe como é

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2022 | 03h00

Na quadra 8, terreno 25, Pedro lamentou não ter mais cintura para tanta vontade de sair dançando. Na quadra 12, terreno 48, Ana tirou o pó (e a areia) do peito e foi acordar a vizinha.

Na quadra 12, terreno 49, Luiza disse que não queria levantar – já que havia sido difícil achar uma posição confortável para descansar em paz.

Na quadra 15, terreno 34, Astolfo puxou uma marchinha do tempo em que ele conheceu Antonieta, que estava na mesma quadra e terreno. 

Mas, na quadra 27, terreno 52, havia uma criança que nunca brincou o carnaval. 

Os moradores daquele espaço, indignados com o destino de um menino tão novinho, decidiram agir. 

Da quadra 27, terreno 41, saiu Amália batendo palmas para que outros ajudassem naquela missão. Das flores postas na quadra 28, terreno 36, ela improvisou um colar. Não era uma fantasia brilhante, mas suficientemente honesta para não deixar o menino Jonas (esse era o nome dele) deslocado na folia. 

E então, com todo cuidado que se deve ter com quem já é mais osso do que pele, o menino foi erguido até a parte mais acessível do muro que dividia a Rua Horácio Lane e o cemitério onde morava.

Jonas viu o bloco do Ó do Borogodó passar. Bateu palmas instintivas. Ele conheceu o pirata da perna de pau e aprendeu marchinhas como Mamãe Eu Quero, Me Dá Um Dinheiro Aí e outras.

O menino gostou, especialmente, da espuma que as crianças atiravam umas nas outras. Parecia uma coisa do outro mundo, do mundo dos vivos. 

Do outro lado, do lado do bloco, só as crianças muito novinhas conseguiam ver o amiguinho sentado no muro. 

Algumas dessas crianças tentavam até espirrar a espuma carnavalesca na direção de Jonas. Ele ria com vontade e se deixava molhar.

O menino também curtiu as fantasias de super-homem, de pirata e de caveira. Aliás, a fantasia de caveira era mesmo familiar. Jonas experimentava a felicidade e a descontração de um verdadeiro carnaval.

Os moradores de todas as quadras se emocionaram, daquele jeito que só quem já morreu sabe como é.

O bloco passou. E Jonas acompanhou maravilhado a maior celebração daquilo que os moradores mais velhos daquele cemitério chamavam de vida. Ou de vidão!

Naquele dia, os coveiros sentiram na alma que era preciso ligar o rádio e ouvir marchinhas de carnaval. E dançaram com suas pás como se estivessem em um salão.

A festa continuou. E o menino brincou do jeito que podia naquele cordão do além-vida. 

*Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observadora da vida urbana

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