Do já visto

Os filmes favoritos para o Oscar deste ano, a ser anunciado no domingo que vem, não prezam pela originalidade. É o ano do "déjà vu". Na semana passada comentei o romantismo "over" de Cisne Negro, com seus recursos básicos ao contraste de branco e preto e aos espelhos quebrados, e o filme de boxe O Vencedor, na linha "família maluca também é família". Antes já tinha comentado A Rede Social, que se concentra nas brigas sobre quem criou o Facebook. Nesta semana vi O Discurso do Rei e Bravura Indômita, dois filmes bem-feitos, mas o primeiro lembra outros melhores e o segundo é um remake comportado. O problema não é apenas o esquema binário e o desfecho previsível de cada um, mas sobretudo a superficialidade da visão, o comodismo de argumento e estrutura. Guerra ao Terror, vencedor do ano passado, era muito mais revelador sobre o cotidiano de um soldado e rico em cenas que emocionam e fazem pensar.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Não que não sejam bons filmes, alguma coisa entre três e quatro estrelas. O Discurso do Rei, de Tom Hooper, ganha vida quando Colin Firth e Geoffrey Rush estão juntos. O primeiro faz o rei gago sem cair nos truques rasteiros e mostrando que sua angústia em relação ao problema vem de seu caráter, não de sua vaidade. O segundo, que faz o australiano sem diploma que o ensina a lidar com a gagueira, tem momentos brilhantes, como quando responde à pergunta do rei, "Eu tenho uma voz?", usando a pausa, o sorriso e o tom como poucos. O bacana do filme é mostrar que encontrar uma voz é muito mais que uma questão de dicas e exercícios; como aprender a escrever, é uma questão de confiar no que se tem a dizer e não sonhar com a solução completa. Há também os enquadramentos de Firth no canto de uma parede descascada, tradução do confronto entre a pompa de sua posição e o tosco da situação em que se meteu.

Mas uma ideia interessante e três ou quatro cenas de boa atuação são pouco para fazer uma grande obra. Sem ser um filme de época ou biográfico, ele se basta nesse conflito ligeiro que sabemos superado ao final. Os personagens do irmão, que renunciou ao trono como Edward VII para se casar com a plebeia divorciada Wallis Simpson, e de Winston Churchill, de longe o autor dos discursos mais poderosos da Segunda Guerra, beiram o patético. Mesmo o método do fonoaudiólogo amador, que envolve perguntas sobre traumas de infância, não dá espaço para autoexames maiores que o de lidar com a timidez de elocução. E em tudo o filme parece sugerir que a monarquia tem o papel de representar uma continuidade - como um teatro esnobe para deleite das massas - sem a qual a nação não seguiria. Nesse aspecto, prefiro a relativa precisão de A Rainha, com Helen Mirren. Mas um filme bem melhor sobre bastidores da realeza é As Loucuras do Rei George, com Nigel Hawthorne, baseado na peça de Allan Bennett.

Bravura Indômita, dos irmãos Coen, é mais cinema. É versão de um western que, apenas por ser mais antigo (1969), é chamado de "clássico", do diretor Henry Hathaway. Uma sinopse possível diria que se trata de uma refilmagem na qual os Coen colocaram algumas de suas digitais: o humor, sobretudo nas falas, de uma certa eloquência ou formalidade que destoa daquele mundo brutal, e em algumas cenas como aquela em que Rooster Cogburn (Jeff Bridges) empurra com o pé duas crianças de cima de uma varanda; a violência mais gráfica, com mutilações em primeiro plano; e a recusa ao tom lendário, que já aparece na interpretação de Bridges, mais para cão velho do que para John Wayne, com seu andar arqueado e semblante impassível. Mas isso faria o espectador pensar que vai ver uma história criativa e engraçada, como Fargo - ainda o melhor dos irmãos Coen - ou mesmo Onde os Fracos Não Têm Vez.

Mas nem o original é obra-prima nem o remake uma "desconstrução", como gostam de dizer os críticos. As pitadas de humor e desmitificação não passam disso, pitadas, e o que temos é a história de uma garota de 14 anos (Hailee Steinfeld) que quer vingar o pai e, com o federal e um "Texas ranger" (Matt Damon), atravessa território indígena para achar o assassino. Aos poucos, obviamente, o durão se deixa amolecer e, apesar de já não atirar e brigar bem, luta contra quatro inimigos e cavalga heroicamente sob o céu estrelado. Os Coen parecem querer os dois mundos agora: o das histórias lineares com vitória dos bem-intencionados e o das inquietudes formais e críticas satíricas. Ficaram mais perto do primeiro. Mas, por exemplo, se você pensar no que Clint Eastwood fez em Os Imperdoáveis, ironizando e ao mesmo tempo reavivando os westerns, vai verificar que não é preciso aderir à caretice.

Há nos cinco favoritos ao Oscar um medo do refinamento psicológico, de verbalizar ou dramatizar mais a fundo as mudanças interiores pelas quais os personagens passam, o que não significa perder leveza nem ação. Os protagonistas não são estereótipos; há um esforço de mostrar defeitos, desenhar nuances. Mas é insuficiente. A bailarina paranoica e aclamada, o pugilista que dá um "jab" e depois um "clinch" na família, o nerd antissocial que vira gênio porque inventa uma rede social, o rei gago que comove a nação por rádio, o caubói com coração - todos, apesar das atuações, se encaixam em enredos que contemporizam e consolam e, pior, parece que já vimos antes. Acrescentar maneirismos à tradição não é o mesmo que renová-la.

Rodapé (1). Gostei muito de Américo, de Felipe Fernández-Armesto (Companhia das Letras), biografia do viajante que deu nome ao continente. O autor é um excelente historiador britânico de origem espanhola e prova que uma biografia não precisa de novidade factual para ser grande; precisa de visão própria e ampla sobre seu retratado e sua época. Ele mostra como Vespúcio não era um grande navegante ou homem de talentos, como Colombo, mas que soube aproveitar o meio privilegiado em que cresceu, a Florença dos Médici, e usar seus dons retóricos para persuadir os poderosos. Quando se muda para Sevilha, Armesto descreve o fervor intelectual e náutico da cidade e o modo como Américo soube ingressar naquela elite, com boa dose de autopromoção. E, quando chega às Américas, a descrição do "paraíso terrestre" já fazia parte da encomenda religiosa.

Rodapé (2). Outra leitura saborosa é Lisboa em Pessoa, de João Correia Filho (Leya). É um guia turístico que parte do que o poeta fez, não exatamente um guia dos pontos da cidade que o poeta visitava e cantava. Ou seja, mesmo quem não é "pessoano" pode usar o volume como guia de Lisboa, pois lá estão os principais atrativos da cidade à beira-mar plantada, como o Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém. De quebra, lê as frases e os versos do gênio português e de outros autores, inclusive estrangeiros. "Há poesia em tudo", dizia Pessoa, e "também na cidade" - dos azulejos aos aquedutos, passando pelas vistas do Tejo e pelos pastéis de Belém.

A rede mental. Acompanho com grande atenção os acontecimentos nos países árabes. Depois da Tunísia e do Egito, há protestos na Líbia (que azar, Lula) e no Bahrein. No Cairo, Mubarak foi derrubado, o Exército assumiu e as eleições devem ocorrer em seis meses. Os conservadores, que leram mal Edmund Burke, dizem que revoluções não melhoram nada, porque logo depois vem outro ditador. No caso, tenho lido na imprensa brasileira alguns que dão certeza de que a Irmandade Muçulmana vai ganhar força e estabelecer uma autocracia islâmica, sem respeito ao Estado de Direito e às liberdades civis. Dizem que o Egito vai no caminho do Irã, não da Turquia. Mas vejo esse movimento supranacional, feito em grande parte por jovens com alguma instrução e acesso à modernidade, e tenho a sensação de que não é a mesma coisa.

Não por causa de redes sociais, vontade de consumo, etc. Mas porque o denominador comum é a rejeição ao autoritarismo, aos regimes isolacionistas e antidemocráticos. Daí a dizer que democracias consistentes, plurais e laicas vão aparecer é outra discussão. Muito sangue ainda vai ser derramado, muitos países continuarão igual, etc. O que é improvável, porém, é que estejamos vendo uma simples troca de grupos de poder. E vale lembrar que, quando o Muro de Berlim caiu, também foi dito que o autoritarismo socialista voltaria. As democracias do Leste Europeu e da Rússia ainda devem saúde, mas o passado passou.

Por que não me ufano (1). Me junto ao velório do Belas Artes, cinema que marcou minha juventude (assim como a livraria de mesmo nome, já extinta) e ao qual ainda costumava ir de vez em quando, sobretudo pela qualidade de programação. O número de salas de cinema vem aumentando e de fato a situação financeira ali parecia difícil de sustentar, mas a questão não é essa; é o lamentável desaparecimento dos cinemas de rua, dos quais meu preferido é o Espaço Unibanco - cinemas onde se encontra outro tipo de público, mais cinéfilo e mais misturado, e que passam a fazer parte da cultura urbana.

Por que não me ufano (2). Não canso de me divertir com a importância que se dá às academias em países colonizados. Basta um professor enunciar uma tese que, mesmo já tendo aparecido nos jornais em diversas ocasiões e em estilo coloquial, ela passa a ser levada a sério. Por exemplo, a de que o conceito de classe média do Ipea é uma piada. No auge da bajulação midiática com Lula, quando o instituto disse que a maioria dos brasileiros estaria nessa classe por ganhar R$ 1.500 ao mês (o que mal dá para pagar uma mensalidade escolar), algumas vozes fizeram a objeção. Agora, a tese vira consenso...

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