J.B. Neto/AE
J.B. Neto/AE

Do islamismo a Maria Bonita

Com música ao vivo, Lenna Beauty aborda as influências orientais na cultura nordestina em Cearábia

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2011 | 06h34

Shows musicais com dançarinos em cena há muitos em vários gêneros – tango, pop, axé, forró, tecnobrega, etc. Espetáculos de dança sem música quase não há, bem como os que são realizados com execução ao vivo. Cearábia, que estreia hoje no Sesc Belenzinho, escapa de todos esses lugares-comuns: é um show de dança e música, em que as duas artes têm peso equivalente.

Em cena apenas uma bailarina, Lenna Beauty, que criou todas as coreografias, e uma banda formada por Yury Kalil (autor da música e diretor musical) na bateria, Fernando Catatau (guitarra), Marcelo Jeneci (sanfona, piano e teclados), Regis Damasceno (baixo) e Thomas Rohrer (violino) em participação especial. Oscar Christofani Segovia e Fernando Stutz criaram vídeos com imagens e elementos gráficos que serão projetados em telões formados por camadas de filó que vão do teto ao piso (criação de Carla Sarmento) e produzem grande efeito no amplo ambiente com apenas 120 cadeiras. A iluminação é de Alessandra Domingues, considerada uma das tops das artes cênicas atualmente.

"Foi uma equipe escolhida a dedo", dizem Lenna e Yury, que trabalham nessa ideia há quatro anos – sintetizar num espetáculo as influências do mundo islâmico (principalmente), mas também do judaísmo, do cristianismo e da cultura cigana na cultura nordestina, com tudo o que as migrações trouxeram pelo caminho (como a conquista da Península Ibérica pelos árabes e de lá para o Descobrimento do Brasil) e o encontro desses traços culturais e religiosos com o índio brasileiro e o cangaço.

Personagens míticos como a Sacerdotisa de Ur, Sherazade, Iracema e Maria Bonita são os pontos de referência para as coreografias de Lenna. "Não é um show folclórico nem na dança nem na música", alerta Yury. Ambos são cearenses, ele descendente de libaneses, ela "cidadã do mundo". Autora do projeto gráfico do livro A Estética do Cangaço, de Frederico Pernambuco, Lenna morou na Espanha durante 12 anos, depois foi a Israel, onde trabalhou com a companhia de dança Mayumana por 8 anos, conheceu o norte da África, estudou dança árabe no Egito, trouxe dessas estadas pelo mundo todos os figurinos e acessórios usados em cena.

"Vários símbolos que eu achava autenticamente nordestinos vi em povoados árabes. Percebi que havia uma conexão muito grande, mas não entendia como isso tinha chegado até aqui. Então comecei a estudar a História e vi que a Espanha antigamente era um país árabe", conta Lenna.

"Foi um período de 800 anos em que as três religiões (islamismo, judaísmo e cristianismo) conviveram em harmonia na Ibéria", prossegue. "Mas aí chegaram os reis católicos, que expulsaram os judeus, os árabes e os ciganos. Nessa expulsão foi que se consolidou o flamenco. Muitos dos que fugiram vieram nas caravelas para o Brasil. Então, os portugueses e espanhóis que nos colonizaram eram absolutamente arabizados. O que fiz foi tomar o caminho inverso: o espetáculo é uma constatação de um fato histórico de muitos anos, questionando porque somos tão parecidos"

Tempo e espaço

Há diversas semelhanças no canto, no ritmo da música, nos rituais, nos trajes. "A gente viu foto de cangaceiro com estrela de David no chapéu de couro", ressalta Yury. "O show roda no tempo e no espaço", diz. O primeiro número se chama Sacerdotisa de Ur, em que Lenna entra em cena com um candelabro de velas acesas sobre a cabeça dançando um tema denso e pungente. "Escolhemos começar por essa referência a Ur porque é uma das cidades mais antigas que a gente conhece e foi do pai Abraão, de onde saiu o judaísmo, o islamismo e o cristianismo", diz Yury. A personagem seguinte é Sherazade, que é oriental, mais delicada. "É como o Ocidente vê o Oriente, com toda aquela coisa fascinante, mágica, etérea", acrescenta Lenna.

A terceira é ibérica, inspirada na dançarina de flamenco. Feita a travessia do mar, a personagem a entrar em cena é a índia Iracema. "Para finalizar, Maria Bonita, porque todo mundo a relaciona ao Nordeste. As roupas são uma mistureba de coisas do Oriente também, como as moedas coladas, as armas", observa Yury. Depois de São Paulo, Cearábia segue para Fortaleza, Rio, Curitiba e Salvador.

CEARÁBIA - Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000, 2076-9700. Ho-je e amanhã, às 21h30; dom., às 18h30. R$ 24

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