Agliberto Lima/AE-25/5/1993
Agliberto Lima/AE-25/5/1993

Do fundo do lago

No centenário de nascimento de Mário Lago, seus múltiplos talentos inspiram uma série de homenagens

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2011 | 00h00

Não são poucos os nomes da música brasileira que chegam ao centenário com a obra ainda viva, passadas décadas de sua morte. Em 2010, festejamos Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Custódio Mesquita, Vadico; em 2011, teremos Nelson Cavaquinho e Assis Valente. Mas alcançar essa marca presente no imaginário popular e ainda com material por se revelar não é algo trivial.

Talvez nosso primeiro multiartista, Mário Lago (1911- 2002), compositor, poeta, autor e ator de rádio, fotonovela, teatro, cinema e TV, é mesmo caso raro. E graças a iniciativas de seus filhos, será revivido de maneira também múltipla: estão previstos documentário, exposição, série de shows, lançamento de dois CDs e reedição de três de seus livros.

Para tornar real o projeto Mário Lago - Homem do Século 20, eles precisam de patrocinadores. Contam que já obtiveram o endosso da Petrobrás, do Sesc e da TV Globo, que empregou seu pai dos anos 60 até sua morte. Também buscaram aprovação para captação pela Lei Rouanet.    

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Talvez a iniciativa mais interessante (e ousada) seja a montagem da peça inédita Foru Quatro Tiradente na Conjuração Baiana, dos anos 70. Situada em Salvador no finzinho do século 18, fala da chamada Revolta dos Alfaiates, de luta pela independência do Brasil e a abolição dos escravos. O cenário é o Pelourinho.

"Queremos negociar com o governo local e montar no próprio Pelourinho, com um grupo de lá. Vamos pedir pro Gilberto Gil fazer as músicas", diz Mário Lago Filho, à frente do projeto. "Ele apresentou à censura e vetaram. Sabia que seria assim, fez para provocar mesmo. Teve só uma leitura, com atores, no teatro Aurimar Rocha (hoje Café Pequeno, no Leblon)."

Tendo vivido ardorosamente quase todo o século 20, sonhava pôr os pés no 21. Chegou por pouco. Fumante de garoto aos 77 anos, morreu de enfisema pulmonar aos 90. Dizia - a frase é repetida pelos que falam dele - que fizera um acordo com o tempo: um não se metia com o outro. Driblou-o, perenizando-se.

Mesmo derrubado com a viuvez (a mulher de cinco décadas morrera em 97), Mário Lago trabalhou até o seu fim, sempre escrevendo à máquina. Ao passar pelo computador da filha, o saudava - "bom dia, excelência!" - e seguia direto, o malandro.

 

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