Do exílio a todo lugar

Salman Rushdie é presença incansável na agitada vida noturna de Nova York

LAURA M. HOLSON , THE NEW YORK TIMES , NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h09

Eram 8 da noite de uma terça chuvosa de fevereiro e Salman Rushdie foi para o Junoon, restaurante de Manhattan onde o autor britânico nascido na Índia era o convidado de honra de um jantar patrocinado pela Booktrack, desenvolvedora de aplicativo que sincroniza música a livros eletrônicos. Aquele era seu segundo jantar da noite - poucas horas antes, Rushdie estivera conversando com Diane Von Furstenberg em um evento para o artista Ouattara Watts.

No Junoon, depois do jantar, o escritor pegou um iPad e leu em voz alta seu conto In the South. Em seguida, perguntou a uma bela jovem em uma mesa. "Como eu me saí?" Ela murmurou alguma coisa a respeito da leitura, e ele agradeceu a sua presença. Enquanto o autor se afastava, ela comentou com alguém ao seu lado. "É bom vê-lo circular, não?"

Talvez a pergunta mais apropriada fosse: "Onde é que os nova-iorquinos não viram Rushdie ultimamente?" Cerca de 25 anos após a publicação dos Versos Satânicos, que levou o aiatolá Ruhollah Khomeini a emitir uma fatwa condenando-o à morte, o autor se tornou presença incansável na vida noturna de Nova York.

Em janeiro, foi visto com o pintor Francesco Clemente em uma vernissage em Chelsea. Semanas antes, organizara um evento literário no Vermilion, um restaurante indiano-latino no qual investiu. O escritor foi também anfitrião de um evento beneficente no Del Posto, em prol do Lunchbox Fund, entidade fundada pela ex-modelo Topaz Page-Green.

Seu interesse pela cultura popular parece enorme, inclusive pela moda (esteve na primeira fileira do desfile de primavera 2012 da Theyskens' Theory), pelo teatro (foi à première de Homem-Aranha: Desligue a Escuridão) e cinema (apareceu na festa da Vanity Fair no Festival de Cinema de Tribeca). Rushdie, que mora nas proximidades de Union Square há 12 anos, também escreve atualmente o roteiro de uma série para o canal Showtime, ambientada na Nova York atual.

Os amigos atribuem a ubiquidade de Rushdie à sua curiosidade e à sensação de ter encontrado um refúgio numa cidade acolhedora. "Poder respirar plenamente, estar em Nova York, isto faz com que se sinta seguro", disse Deepa Mehta, amiga e diretora do filme Os Filhos da Meia-noite, baseado no romance com o qual conquistou o Prêmio Booker. "É a liberdade." Não é o primeiro autor famoso a se esbaldar na vida noturna da cidade. De Truman Capote nos anos 50 e 60, a Norman Mailer nos anos 70 e 80, frequentar a alta sociedade sempre fez parte da vida das celebridades literárias.

Mas a incansável presença do britânico em público é notada não apenas por desafiar o édito emitido contra ele em países mais intransigentes, mas também porque ocorre exatamente em um momento em que muitos dos escritores mais bem-sucedidos de NY aparentemente levam uma tranquila existência doméstica no Brooklyn. "A época do autor personagem público declinou consideravelmente", afirma Mort Manklow, veterano agente literário. "Os escritores mais prolíficos não são mais vistos em noitadas."

Como Mailer, que teve seis esposas, Rushdie, casado quatro vezes, criou fama de queridinho das mulheres. "Todas as vezes em que é visto, está na companhia de duas ou três mulheres lindas", diz Graydon Carter, amigo e editor da Vanity Fair. O primeiro casamento de Rushdie, em 1976, com a agente literária Clarissa Luard, acabou em 1987. Seus dois relacionamentos seguintes também pertenciam ao mundo dos livros; Marianne Wiggins é escritora e Elizabeth West, editora. Mas sua relação mais rumorosa talvez tenha sido com a ex-modelo e atriz Padma Lakshmi.

Desde a separação, em 2007, ele se envolveu com várias jovens atraentes. Amigos dizem que ele teve um caso com a socialite Michelle Barish. A atriz Pia Glenn fala publicamente de um relacionamento com Rushdie. E em novembro, Devorah Rose, aspirante a atriz de reality show na TV e editora de revistas, onde faz a crônica da sociedade em Hamptons, postou no Twitter uma foto dela com o autor em um jantar. "Época maravilhosa com Salman. Volte logo para os States para a gente fazer tudo de novo."

O que se seguiu entre Rose e Rushdie foi tema de muitas fofocas. Ele disse ao The Post que Rose era uma mera conhecida. Ela retrucou que Rushdie a perseguia romanticamente e mostrou mensagens que ele lhe enviara no Facebook para que fossem publicadas num site de fofocas.

O escritor adotou a mídia social com o entusiasmo de um adolescente e reuniu mais de 246 mil seguidores no Twitter. Deepika Bahri, amiga e professora adjunta de inglês na Emory University de Atlanta, informou que ele topa qualquer tipo de interação com qualquer pessoa ou tema. "Não acho que isso seja importante para ele", disse Bahri, quando perguntaram se este comportamento poderia afetar a opinião que o público tem dele. "Ele não tem medo nem se preocupa com o que as pessoas pensam ou se isto poderá comprometer sua reputação literária."

Para Rushdie, essas plataformas não são apenas novas maneiras de mostrar seu talento, mas representam uma espécie de libertação, afirmam os amigos. "Ele diz que nasceu de novo com a linguagem digital", adiantou Bahri. Certamente, qualquer que seja a onda social no espaço cibernético ou na cidade, Rushdie preserva sua marca literária - o que não é uma façanha desprezível, como seu agente Janklow destacou: "É difícil ser uma grande figura social e um grande escritor."

A publicação em 1988 de Os Versos Satânicos, considerado ofensivo ao profeta Maomé, levou o aiatolá Ruhollah Khomeini a emitir uma fatwa contra Salman Rushdie em 14 de fevereiro de 1989, convocando os "muçulmanos zelosos" a assassinar o escritor. Diversos atentados o forçaram a se esconder durante quase dez anos, até que, em 1998, o governo iraniano questionou a decisão de Khomeini, afirmando que não mais apoiava a ordem de assassinato do escritor.

Em 1990, pressionado pela ameaça de radicais muçulmanos, assinou um documento em que repudiou as ofensas ao Islã. Mas hoje diz que estava apenas defendendo sua vida. Não mudaria uma linha de seu polêmico livro, garantiu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.