Do escracho ao desbunde total

Na Copa do Mundo de 1998, o brasileiro Chico Caruso e o francês Jean Plantu tiveram cartuns expostos lado a lado no restaurante Le Carnivore, em Nantes. Aparentemente tão distantes, duas escolas do traço se mostravam muito à vontade no mesmo espaço, o que não surpreendia.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Plantu faz cartum eminentemente político, mas de forma muito debochada, como se desdenhasse do teatro pretensamente democrático dos homens de Estado. Certa vez, na primeira página de Le Monde, seu cartum mostrava um americano executado na prisão clamando por inocência. Ele encontra o ditador chileno Pinochet saindo de sua residência inglesa em direção ao avião. O executado pergunta a Pinochet: "O que você acha de ser libertado?" Pinochet responde: "O que você acha de ser inocente?"

Chico Caruso ganhou prêmio no Salão de Piracicaba, há 30 anos, em plena ditadura militar, com cartum no qual dois agentes da repressão prendiam um palhaço durante seu show, no picadeiro, deixando a plateia atônita.

A "passagem do bastão" do cartum político brasileiro para o chamado "humor de costumes" se deu quase imperceptivelmente. Gente como Henfil, Millôr, Jaguar e Ziraldo abraçaram sem muita cerimônia os que chegavam após a saída do regime militar, no fim dos anos 70, começo dos anos 80: Angeli, Laerte, Glauco, Loredano, e outros artistas do traço, como Luis Gê, conviveram e se conheceram, e transformaram a sua "abertura" em um lance cordial, sem aquela coisa do novo precisar sobrepujar o antigo para se desenvolver.

Claro, os que estavam chegando radicalizaram o escracho ensinado por Henfil. E como na França de Plantu (em que cartunistas como Jano precisaram achar caminho diferente do seu ídolo, Robert Crumb), no Brasil se tratava de promover o desbunde de forma total e irrestrita - nisso, Glauco Villas-Boas foi o bambambã.

CRAQUES NACIONAIS

Henfil

Mineiro, criador de Graúna, Zeferino e Bode Orelana, viveu em luta constante contra a ditadura.

Jaguar

Cartunista carioca que ajudou a fundar O Pasquim em 1969, foi perseguido pela ditadura.

Glauco

Paranaense, representante do humor de costumes, pai do Geraldão. Em março, foi assassinado.

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