Djin e Helena, laços afetivos no cinema e no teatro

Um emaranhado de memórias e sentimentos sustenta os trabalhos de Helena Ignez e Djin Sganzerla. Mãe e filha, elas estão juntas no espetáculo O Livro da Grande Desordem e da Infinita Coerência, em cartaz no Sesc Santana. Também acabam de concluir as filmagens de O Poder dos Afetos, média metragem que traz Ney Matogrosso e Simone Spoladore no elenco. "Tudo isso aconteceu muito cedo. Aos 17 anos, meus pais já me disseram que iriam abrir uma produtora no meu nome", conta Djin, herdeira de Helena com o cineasta Rogério Sganzerla. "Fizemos as coisas sempre juntos. Já são sete peças, oito filmes: as nossas obras acabam sendo uma extensão dos nossos sonhos, loucuras, anseios. É algo muito íntimo - porque, afinal, somos mãe e filha - mas criou-se também uma relação que é profissional."

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2013 | 02h22

Trabalhar em família é prática mais do que natural para Helena. Reverenciada como musa do cinema marginal, a atriz e diretora sempre misturou a arte às suas afeições. "Desde sempre comecei a trabalhar com pessoas muito próximas a mim. Comecei com Glauber (Rocha), que era meu namorado na época, depois tornou-se meu marido e pai de minha primeira filha", conta ela, relembrando a estreia no cinema com O Pátio (1959). "Com Rogério (Sganzerla), a relação também partiu de um convite profissional", relembra. Ele havia escrito uma crítica elogiosa sobre seu desempenho em O Padre a Moça (1965). Ela só conhecia de nome aquele menino que todos diziam escrever muito bem e que a chamou para fazer parte de seu primeiro longa: O Bandido da Luz Vermelha (1968). "Depois disso, estabelecemos um laço absolutamente profundo, que mantivemos por 35 anos e vai durar para sempre. Somos um daqueles pares eternos", comenta.

O Livro da Grande Desordem e da Infinita Coerência é uma versão teatral - inédita no Brasil - de um dos livros mais curiosos e controversos de August Strindberg. Entre 1894 e 1896, o dramaturgo sueco experimentava uma intensa crise existencial. Abandonou a família e a literatura. Resolveu dedicar-se, quase exclusivamente, à alquimia. O período turbulento foi registrado em um diário. E é esse o mote que conduziu a produção, dirigida e protagonizada por André Guerreiro Lopes. Para não fugir ao que parece ser tradição neste clã, o encenador é casado com Djin e, ao lado dela mantém, desde 2007, a companhia Lusco-Fusco.

Na nova obra, eles reforçam um traço que já aparecia em seus títulos anteriores: O Estranho Familiar (2010) e O Belo Indiferente (2012). Para alcançar forte apelo sensorial junto aos espectadores, o grupo combina elementos que extravasam o teatro e traz, para dentro da sala de espetáculos, evocações de outras artes. À semelhança de uma grande instalação, O Livro da Grande Desordem... mistura artes plásticas, cinema e música. Dois curtas-metragens fazem parte da encenação. Toda a trilha sonora também é executada ao vivo. No palco, o instrumentista Gregory Silver toca piano, flauta, violino e cello. Além disso, também criou algumas "máquinas" sonoras, coordenadas por computador, que interferem nas cenas.

O papel que Helena Ignez interpreta no espetáculo não existia na obra original. Foi criado pelo genro especialmente para ela. "Eu pedi para entrar. E ele concebeu um personagem mítico, semelhante a vários que fiz ao longo da minha carreira", explica a atriz. Essa figura funciona como uma espécie de voz paralela, que segue observando de fora tudo o que se passa. A Djin cabe dar corpo a Agnes, figura transposta de outro título de Strindberg, O Sonho.

Mesmo quando está fora do círculo familiar, Helena deixa claro que costuma guiar suas criações - seja no cinema, seja no teatro -, pelos vínculos de afeição e amizade. Em seu filme mais recente, que foi gravado em julho, durante a última edição do Festival de Arte da Serrinha, ela repete parcerias antigas. Em O Poder dos Afetos, a cineasta volta a rodear-se de Ney Matogrosso - com quem gravou Luz nas Trevas. Também retoma o laço com outros artistas, como a atriz Simone Spoladore e o cantor Dan Nakagawa. Seu próximo trabalho, já em fase de captação, será um longa, Ralé. E guarda uma interessante semelhança com o último filme. O enredo, seus conflitos, tudo isso deve ser diferente. Mas o elenco permanece exatamente o mesmo. "É assim que gosto de trabalhar", completa.

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