DJ pode ser maestro?

Claudia

O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h08

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Quando em 1977 o DJ Grego lançou seu álbum Maestro Mecânico, um dos primeiros do país com som contínuo - as músicas vinham emendadas umas nas outras -, ser DJ era visto como um hobby de meia dúzia de malucos. Hoje, o título do disco não poderia ser mais visionário e atual. Com a ajuda da tecnologia, o DJ está cada vez mais próximo do posto de maestro e distante do estigma de "colocador de música" que o acompanhava décadas atrás.

O primeiro DJ a se aproximar do universo das batutas foi o americano Jeff Mills. Em 2005, o DJ e produtor de Detroit se juntou à Orquestra Filarmônica de Montpellier, na França, para uma apresentação gratuita em que parte da obra de Mills ganhou vida através da execução de instrumentos ao vivo. Quem quiser conferir o resultado da fusão do techno espacial de Jeff Mills com o som da orquestra filarmônica pode ir atrás do DVD Blue Potential, que traz o registro da apresentação.

No Brasil, a primeira incursão de um DJ no mundo erudito aconteceu em 2007, quando a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, foi encenada com um disc-jóquei no palco. O romance entre o índio Peri e a jovem branca Ceci ganhou nova trilha sonora graças à parceria do maestro Fábio Gomes com o DJ Mau Mau. Para o DJ, um dos maiores desafios do projeto foi trabalhar em andamentos totalmente desconhecidos para quem estava habituado aos tradicionais 4/4 da música eletrônica.

"Foi uma experiência única e um grande desafio. É um tipo de música bem diferente daquele a que eu estava acostumado. Foi um enriquecimento enorme na área de produção entender as partituras da ópera", diz Mau Mau.

Em 2009, outro DJ importante do cenário nacional se aventurou numa sala de concerto. Ao lado do pianista e maestro João Carlos Martins e da Orquestra Bachiana Filarmônica de São Paulo, o DJ Anderson Noise apresentou na Sala São Paulo um repertório icônico da música clássica, com músicas como O Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa-Lobos, e Sinfonia Nº 40 em Sol Menor, de Mozart.

A apresentação foi tão marcante para a carreira de Noise que a dupla irá repetir a dose no final deste ano, dias 21 e 22 de dezembro, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

"Naquele momento, senti que a minha história como DJ havia atingido o ápice. A parceria com o maestro me trouxe um aprendizado muito grande", diz Noise. "Acho que apresentações como essa dão uma importância diferente para o DJ. Hoje as pessoas me enxergam de outra forma e com certeza essa empreitada com o maestro e a orquestra me valorizou muito", acredita o mineiro, que em dezembro repete o João Carlos Martins e Anderson Noise in Concert, desta vez com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

Segundo ele, a maior emoção e também o maior desafio é o fato de as músicas serem tremendamente conhecidas. "Interferir numa obra tão clássica e antiga ao mesmo tempo é algo mágico. Mas com certeza o DJ hoje tem capacidade para estar ao lado de um maestro, aprendendo muito com ele", avalia Noise.

Outro top DJ brasileiro que vai encarar um enorme desafio nos próximos meses é Marky. Em 10 de agosto, ele irá se apresentar no Cine Jóia, em São Paulo, 'mixando' duas bandas.

A proposta do projeto Red Bull Technostalgia é apresentar clássicos da música eletrônica com músicos ao vivo no lugar de samples e programação eletrônica, tendo o DJ Marky como maestro.

O DJ estará no comando de duas bandas e irá reger a performance de ambas, como se cada uma delas fosse um disco. "A ideia é que eu use as duas bandas como se fossem dois toca-discos, e eu seria o mixer. Tenho que 'disparar' a outra banda para executar a mixagem", explica DJ Marky. "É um desafio, e eu gosto de desafios. Estou bem animado, espero que consiga surpreender as pessoas e me surpreender também!", disse o DJ pelo Facebook, a caminho do Hide Out Festival, na Croácia, onde toca neste fim de semana.

Ações que levam a figura do DJ para além da cabine de som das boates são muito bem-vindas em tempos de banalização da música eletrônica.

"Hoje, que todo mundo é meio DJ, quem está na profissão porque ama de verdade precisa buscar outros caminhos", acredita o DJ Mau Mau. "O papel do DJ passou a ser o de buscar novidades em diversas áreas, porque novidades da música qualquer um é capaz de ir atrás", diz.

Importante para demonstrar que, apesar da tecnologia agora acessível a todos, uma ferramenta, que fica entre o botão do mixer e o fone de ouvido, continua sendo fundamental: o bom e velho cérebro. E isso não se compra por aí. Pelo menos não ainda.

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