Diversão honesta para acompanhar com pipoca

Virou o ti-ti-ti da diversão cinematográfica. A rainha pega em armas em Red. Só se espanta quem ignora que Helen Mirren fez a mãe de Nicolas Cage na série Tesouro Nacional e, como tal, já esteve envolvida em perseguições e tiroteios - mesmo que lá não fosse ela quem realmente empunhasse as armas. Desta vez, ela o faz, e sem perder a classe, mas a cena mais engraçada desta nova faceta da dame é a que a mostra de longo, após a festa em homenagem ao vice-presidente dos EUA, vilão da história, trocando o salto alto pelo coturno, que vai lhe dar mais estabilidade na hora de usar a metralhadora pesada. Pode haver aí um subtexto. Helen Mirren veste o coturno sem perder a feminilidade nem o gosto pelos homens. Sua personagem é uma romântica incorrigível. Reparem como ela ameaça esfolar Mary Louise Parker, se machucar o coração combalido do aposentado Bruce Willis.

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Sem ser uma surpresa, Red é uma diversão honesta e um bom espetáculo para apreciadores de filmes que acompanham pipoca e refrigerante. Talvez seja um desafio para os bem jovens. Afinal, exibidores e distribuidores garantem que filmes de velhos, perdão, de melhor idade, não interessam aos jovens que hoje se constituem no público maciço e massivo dos cinemas. Os jovens não terão do que se queixar em Red. O filme é sobre aposentados que voltam à ativa quando, do nada, começam a ser perseguidos (e eliminados).

O primeiro a ter a casa metralhada é Bruce Willis e, como ele se comunica com a funcionária do serviço social que lhe atribui o rendimento de aposentado, logo ela também está sendo perseguida por sicários. Ambos fogem e ele vai agregando antigos espiões ao grupo. São velhos, mas não inativos. É a ideia do diretor Robert Schwentke - a terceira idade só é para quem quer, quem desistiu das coisas boas da vida. Não é porque você não tem barriga de tanquinho que vai abrir mão de certas delícias.

Vale volta ao diretor Schwentke. Foi quem dirigiu Eric Bana e Rachel McAdams em The Time Traveller"s Wife, adaptado da ficção científica de Autrey Niffenegger. O outro filme é sobre homem que viaja no tempo e sempre volta para a mulher amada. Ora ele é um velho, ora uma criança. Essa relatividade do tempo parece se constituir na essência de Red. Os velhos também amam, pegam em armas, recomeçam.

Para o espectador que não está interessado em Bergson, o filósofo do tempo, o que conta é a diversão e Red dá conta dela. Helen Mirren pode ser neófita nesse negócio de pegar em armas, mas Bruce Willis, Morgan Freeman e até John Malkovich são veteranos no ofício. E Willis, que há décadas encarna o duro de matar, não é bom só de arma em punho. Também bate e arrebenta.

Por mais fantasiosa que seja a trama, a ideia de que o vice-presidente dos EUA está usando a CIA para limpar o próprio passado e se habilitar a concorrer à Presidência não deixa de ter certo interesse (e de ser sintomática dos tempos de Barack Obama, mesmo que o atual presidente esteja enfrentando uma crise com seu eleitorado conservador). Na era George W. Bush, havia uma confusão entre interesses públicos e privados na condução da coisa pública, como não se cansou de mostrar - quase sempre com provas irrefutáveis - Michael Moore. Até o agente jovem percebe que está sendo manipulado, e também age. Mais do que simplesmente divertido, é salutar ver mocinhos que, independentemente da idade, são honestos e conhecem os limites da (i)legalidade.

Trailer. Assista a trechos do filme Red no site

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