Divas em momentos raros

Com gravações inéditas em CD, grandes cantoras dão aulas de interpretação

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2012 | 07h52

O pesquisador Rodrigo Faour diz que criou a série Super Divas só como pretexto para homenagear Ademilde Fonseca. A Rainha do Choro teve participação ativa no projeto, comentando uma por uma as gravações escolhidas pelo pesquisador, que incluiu as frases da cantora no encarte do CD. Entre os clássicos imortalizados por Ademilde estão Tico-Tico no Fubá (marco inicial de seu estilo de choro cantado), Brasileirinho e Delicado (ambos de Waldir Azevedo com parceiros), O Que Vier Eu Traço (Alvaiade/Zé Maria) e Apanhei-te, Cavaquinho (Ernesto Nazareth/Darci de Oliveira).

Como Ademilde, Dalva de Oliveira (1917-1972) também foi contemplada com um CD duplo com clássicos e raridades. Ambos foram os que mais deram trabalho ao pesquisador, não por serem duplos. "No caso de Ademilde, tive de sair à cata de autores. Esperei meses para liberar algumas músicas e também pra conseguir as masters, porque muita coisa se perdeu. Em vários casos tive de copiar músicas dos discos de vinil", conta. "Tive de trocar várias faixas de Dalva por não conseguir liberação das músicas."

Se no caso dos álbuns já é difícil encontrar as matrizes originais, com os singles é ainda mais complicado. Executivos de gravadoras nem sabem da existência de certas gravações, como é o caso de Bravo!, tema da novela de mesmo nome gravado por Maysa em compacto em 1975. Para conseguir o Hino do Corinthians e Transplante Corintiano, gravados por Maria Alcina num compacto simples em 1977, Faour viajou do Rio a São Paulo atrás de um colecionador que emprestou o disco para ele copiar. Dono de Ninguém (Carioca), gravada por Ademilde num 78RPM em 1954, foi digitalizada a partir de três discos obtidos de colecionadores. Todos estavam com defeito em alguma parte e a solução foi fazer emendas.

Como sempre, Faour teve o cuidado de informar nos encartes detalhes sobre cada faixa dos CDs, além de traçar breves e esclarecedores perfis das cantoras e reproduzir capas dos LPs e compactos dos quais essas canções foram extraídas. Muitas dessas cantoras nunca tiveram nem em enciclopédias verbetes tão detalhados como esses. "Fiz isso pela paixão que tenho por todas elas", diz Faour. "Acho que elas têm o mais difícil que é estilo próprio. Você pode não gostar de algumas, mas cada uma tem seu estilo marcante. Então, isso é um documento. Quem quiser ser cantor(a) tem muito que aprender com essas veteranas. Esses discos são aulas de canto, de nuance de interpretação, de repertório, de intensidade."

De Eliana Pittman, Maria Alcina, Cláudia, Carmélia Alves e Waleska ele diz que conseguiu fazer um "best of", porque quase nada delas havia saído em CD. Outras - como Elizeth Cardoso, Leny Eversong, Maysa e Ângela Maria -, têm mais "lados B" e facetas inusitadas. Os de Ademilde e Carmélia, embora tenham muitos clássicos, são gravações que estavam esquecidas.

"Ter tido a oportunidade de fazer um disco de Rosana Toledo é um milagre, ainda mais que ela mora no retiro dos artistas, apesar de estar com saúde. É uma ótima cantora, que de certa forma abandonou a carreira já no fim dos anos 1960, fez pouquíssima coisa de lá pra cá e tinha um repertório excelente que estava perdido", destaca Faour. "Nosso país é muito ingrato, porque um repertório de qualidade como o dessas cantoras estar fora de catálogo há tantos anos é um absurdo."

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