Divas, a fase de ouro dos musicais

Produção bem cuidada celebra os 35 anos de carreira de sua criadora, Dinah Perry, em clima de glamour e charme

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2011 | 00h00

Um mundo fechado, que se autorregula com as próprias referências, e permanece desconhecido para as gerações que o sucederam. A imensa popularidade, aqui no Brasil, do jazz na dança dos anos 1980, inexiste como fato para a maioria dos que se profissionalizaram depois dessa época - o que abrange boa parte de quem está na ativa agora e tem entrado em contato com esse universo via o que se noticia sobre as produções brasileiras recentes de musicais de sucesso.

No entanto, para adentrar em Divas, o espetáculo com que Dinah Perry celebra seus 35 anos de carreira, em temporada recém-encerrada no Teatro Augusta, o passaporte dessa referência é exigido. Sem ele, corre-se o risco de cometer a impropriedade de situá-lo fora da moldura que lhe dá sentido, e que se encontra desaparecida do jorro de obras de dança que têm inundado os palcos nos últimos tempos.

Não é recomendável assisti-lo sem atentar para o tipo de reencenação que o pauta. Dinah escolheu o formato de um cabaré em versão de bolso (ou seja, em tamanho reduzido) para fazer as suas leituras de Cyd Charisse, Ginger Rogers, Marilyn Monroe, Leslie Caron e, é claro, Liza Minelli. Não cita as coreografias originais, pois as adaptou, replicando o mesmo modo de trabalhar que o maestro Edmundo Villani-Côrtes adotou com as trilhas sonoras. Música e dança uniram-se na decisão de apresentar as imagens emblemas daqueles ambientes, e não os seus materiais específicos, que também não aparecem na forma de citação. Uma escolha clara, que se resolve em uma produção cuidada e coerente com seus objetivos.

Não há nenhuma preocupação com as reflexões que circulam sobre critérios, usos e função das remontagens, e que se abrigam debaixo do conceito de reenactment (palavra inglesa para o ato de pôr novamente em atuação obras importantes). Para Divas, a dança tem uma única forma de existir: ser o que se chama de espetáculo, mesmo quando acontece em um espaço modesto como o da segunda sala do Teatro Augusta.

Não há vestígio das vociferações que as feministas vêm fazendo desde os anos 1960/70. O corpo da mulher continua a funcionar como uma arma de sedução, com o entendimento de mulher e de sedução que os musicais hollywoodianos consagraram entre os anos 1930 e 1950, e que hoje se transformou em clichê desse tipo de produção. A homenagem que Divas faz a tudo isso é aquela da ordem da adesão incondicional - longa vida para as divas que se mantêm divas!

Felipe Rodrigues, Lurian Reis, Renato Possidônio e William Mazza compõem o elenco masculino que se empenha em singularizar cada cena. No piano, Deise Trebitz e o maestro Villani-Côrtes se dedicam a moldar o clima de cabaré. E Dinah vai compondo as suas personagens compactando figurinos e vestígios daquele mundo de glamour em flashes de coreografias bem dançadas. A lamentar que a sua preparação vocal, a cargo de Efigênia Côrtes, ainda não tenha atingido os timbres e a emissão necessários a uma diva de cabaré, talvez por ainda carecer de mais tempo de dedicação.

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