Divã de Meryl Streep

Quando o abismo conjugal parece sugar tudo, discutir a relação a três pode ser a saída

CINDY PEARLMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2012 | 03h09

Recentemente Meryl Streep ganhou o terceiro Oscar por seu trabalho em A Dama de Ferro (2011), filme em que encarnou a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Foi um desempenho típico seu - uma interpretação brilhante e perfeita nos detalhes de uma mulher forte acostumada ao poder. Em longas como O Diabo Veste Prada (2004), Dúvida (2008) e Julie & Julia (2009), ela encarnou mulheres com força suficiente para dirigirem suas próprias vidas e a de todos à sua volta.

No novo Um Divã para Dois, a coisa é bem diferente. A atriz vive Kay, mulher de Arnold (Tommy Lee Jones), um contador grosseiro e emocionalmente distante. Com os filhos crescidos, tudo o que lhe resta é um tédio sufocante. Ela não manda na vida de ninguém, nem mesmo na sua.

A história decola quando Kay finalmente toma coragem e inscreve o casal num retiro no Maine, num programa de terapia de casais ministrado por um guru das celebridades (Steve Carrell) - e ameaça Arnold, dizendo que, se ele não for, o casamento já era. O marido não gosta, mas não vê outra saída a não ser concordar.

"O filme é sobre a vida", diz Meryl, descontraída, com uma xícara de café nas mãos, num hotel de Los Angeles. "Mostra como é possível viver com alguém durante um tempão e ignorar os problemas que começam a surgir. Para mim, essa ignorância cria uma ameaça dentro de casa."

Não há nada autobiográfico nesse trabalho, ressalta a atriz, que é (bem) casada com o escultor Donald Gummer desde 1978 e tem quatro filhos, incluindo as atrizes Mamie e Grace Gummer.

"O tema que esse filme aborda é o fato de que só temos uma vida", continua ela, "e que vale muito a pena manter a chama do romantismo acesa. Vale, mesmo que seja difícil porque você só consegue isso se for completamente honesta com o parceiro - e se abrir é muito difícil e doloroso. Ao mesmo tempo, é extremamente gratificante."

"Conforme a gente vai envelhecendo, vai assumindo os papéis que a vida impõe", ela afirma. "Você quer se sentir segura. Nesse filme, interpreto o tipo de mulher que não quer causar problemas, mas se incomoda com o fato de viver uma vida tediosa. Ela quer se divertir."

Não parece lá muito engraçado, mas, na verdade, o filme é uma comédia - e grande parte do humor vem dos esforços de Kay para reavivar a vida sexual quase moribunda do casal.

"O que achei ótimo foi o fato de o filme mostrar gente de meia-idade em cenas românticas", afirma. "Longas europeus sempre mostraram gente de todas as idades em diferentes aspectos da vida, inclusive transando. Espero que esse público tão relegado se identifique."

E embora em sua filmografia haja raras cenas de sexo, a atriz revela que não ficou nervosa ao gravar cenas mais íntimas com Jones. "A única situação que me deixa nervosa é ter que fazer um discurso como eu mesma", desconversa.

Em entrevista separada, Jones disse que trabalhar com Meryl Streep foi exatamente como ele pensou que seria. "Nada me surpreende em relação a Meryl Streep", declarou Jones, com sua honestidade típica. "Nada mesmo. Eu achava que ela fosse muito inteligente, muito ágil e muito rápida nas tomadas. Sabia que cada dia seria um milagre e ela não me decepcionou."

Por sua vez, a estrela disse que o primeiro trabalho com Jones foi muito bom. "Fiquei surpresa com a rapidez com que me senti 'casada' com ele", diz ela. "Achei que fosse um processo demorado e estava meio preocupada porque não havia muito tempo de ensaio. Estava meio apreensiva, não sabia bem o que esperar, mas acabei me sentindo à vontade bem rápido - o que é, na verdade, um jeito bem bobo de descrever aquilo de que estou falando, que é a confiança."

Pode haver muito pouca coisa em comum entre Kay e Meryl, mas a atriz garante que isso não é problema. Depois de 35 anos de carreira, encarnar pessoas diferentes já virou sua segunda natureza.

"Nunca penso numa personagem como alguém diferente de mim", explica. "No caso dessa dona de casa, pensei naquela parte de mim que é tímida, a porção da minha personalidade que não gosta de falar sobre as coisas."

Ela afirma que cada papel é como uma sessão de terapia. "A verdadeira razão de eu querer atuar é egoísta porque quero explorar o que há aqui dentro", diz. "É superimportante porque posso me entender através dessas personagens. E o engraçado é que, por mais diferente que seja, tem sempre um traço pessoal que acho que vale a pena explorar."

E o que uma estrela aclamada mundialmente no palco e na tela pode ter em comum com uma dona de casa suburbana frustrada? "Eu entendo seu desejo, sua fome de viver", Meryl rebate de pronto. "Sei muito bem o que é isso, a vontade de fazer e ter mais conforme o tempo passa. Conheço a sensação de querer enriquecer o tempo que se tem neste planeta. A felicidade dela está sentada ali na frente, tomando o café da manhã. Ela sabe disso, mas, como chegar a ele?"

O segredo, diz ela, é se ater à realidade da personagem, do cenário ou da história. "Ou é uma coisa sincera ou não é", dispara ela. "Nesse caso, uma mulher decide fazer terapia como o marido, embora ele praticamente a proíba. Eu acho que é um ato de extrema coragem. Precisa ter muito peito para começar alguma coisa nessa vida. Esse é o verdadeiro desafio de se manter vivo, correr atrás da felicidade."

O Oscar de Melhor Atriz por A Dama de Ferro foi o terceiro de Meryl, mas o primeiro desde que levou como Melhor Atriz Coadjuvante por Kramer vs. Kramer (1978) e como Melhor Atriz por A Escolha de Sofia (1982), apesar das inúmeras indicações.

"Na minha idade, ganhar este ano foi fenomenal", diz ela rindo. "Foi muito gratificante olhar para o teatro lotado, durante a cerimônia, e perceber que já trabalhei com muita gente boa que estava sentada ali. Eu me lembro de ter feito o mesmo da primeira vez que ganhei. Para mim, só havia rostos estranhos e famosos; nunca pensei que, um dia, ia me sentir à vontade ali."

Quanto ao futuro, Meryl ouviu os boatos sobre uma sequência de O Diabo Veste Prada, mas não sabe se está preparada para voltar a encarnar a editora de moda Miranda Priestly. "Fico exausta só de pensar", confessa ela. "Estou falando da dieta e da rotina de exercícios que tenho que fazer para interpretá-la. É de matar." Seu próximo filme, que estreia em 2013, é a adaptação da peça premiada de Tracy Lett, August: Osage County, sobre uma família que tenta superar suas diferenças depois do desaparecimento do patriarca, alcoólatra.

"Interpreto uma fumante inveterada viciada em comprimidos que tem câncer na boca", descreve a atriz, encantada. "A história se passa em Oklahoma, num ambiente escuro, com todas as janelas fechadas. É baseado numa peça fantástica e estou superanimada, embora seja um papel difícil." Mesmo depois de décadas na profissão, Meryl confessa ainda se empolgar com as personagens novas. "Continuo sentindo a mesma coisa", revela. "Ainda acredito que toda personagem merece a minha dedicação absoluta. É uma vida que tenho que retratar. Estou representando uma pessoa."

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