Distanciamento, crítica e humor

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMENTADA DA UERJ, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h09

N

atal na literatura brasileira: os termos dessa equação poderiam sugerir um exercício aborrecido de literatura comparada, na linha de estudos denominada "tematologia", que procura identificar a presença de uma constelação de preocupações e procedimentos em autores diversos e em contextos culturais distintos. A tarefa do crítico seria a compilação de uma lista erudita de poemas, crônicas, contos, romances, peças de teatro, enfim, textos que aludissem ao Natal.

Contudo, tal lista dificilmente despertaria interesse, pois faltaria à coleção o princípio seletivo, esclarecedor da importância do conjunto.

Explicitemos, então, os critérios adotados.

De um lado, as inúmeras apropriações da celebração do Natal apresentam uma metonímia do movimento fundador da cultura brasileira, que sempre oscilou entre o próprio e o alheio. O diálogo constitutivo com a tradição literária do Ocidente obrigou os autores a uma constante transformação dos modelos adotados. De outro, não oferecemos uma abordagem exaustiva do tópico. Pelo contrário, assinalamos as linhas de força que definem o aproveitamento do tema.

Três gestos são dominantes: um distanciamento irônico, no qual a data serve como pretexto; um olhar crítico, que assinala o descompasso entre a festa e o cotidiano brasileiro; e, por fim, o tratamento cômico que subverte o sentido da data.

Vejamos os três movimentos.

O conto de Machado de Assis, Missa do Galo, anuncia o primeiro. A relação de um jovem estudante de 17 anos com Conceição, perfeita balzaquiana, permanece sob o mistério e a ambiguidade, marca d'água machadiana. Na meia-luz em que dialogam o futuro narrador e a esposa do escrivão Meneses, uma sutil malha de encanto é tecida pela mulher. A abertura do texto esclarece a força das melhores páginas de Machado: "Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos (...)". O narrador é o agora envelhecido jovem que começa a entender o diálogo oblíquo que manteve com Conceição. O texto é um dos mais eróticos da produção machadiana. Parágrafo a parágrafo, a sedução da experiente mulher oferece mil e uma possibilidades para que o menino se descubra homem, mas o rito de passagem é frustrado, pois ele nunca arrisca o passo decisivo. Antonio Callado explicitou a sugestão em sua reescrita do texto. Em Lembranças de Dona Inácia, o autor de Quarup disse tudo: "A Corte inteira na missa do galo e Conceição na missa do frango?". Nessa missa pela metade, a balzaquiana não chegou a comungar.

Machado também é o autor de um soneto memorável, em que se joga precisamente com a paradoxal historicidade da celebração:

Um homem, - era aquela noite amiga,

Noite cristã, berço no Nazareno, -

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,

A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Na verdade, os dois mudaram, e muito: heraclitiano, o soneto anuncia o reinado do transitório em meio à pretensão de universalidade atribuída à efeméride.

O conto de Lygia Fagundes Telles, Natal na Barca, parte de impulso vizinho. Nele, a personagem-narradora se encontra com "apenas quatro passageiros (...): um velho, uma mulher com uma criança e eu". Ensimesmada em seus dilemas, ela busca a solidão: "Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca". Contudo, uma troca casual de palavras revela a dimensão do drama da mulher. Descobre que é professora, perdeu um filho num acidente e foi abandonada pelo marido. E o menino que traz no colo está gravemente enfermo. A narradora se espanta com a serenidade da mulher, e ainda mais com sua justificativa: "- Tenho fé, dona. Deus nunca me abandona". O clímax do conto se aproxima. Ao observar a criança, o susto: "O menino estava morto". Contudo, ao chegarem ao porto, o sentido da data se concretiza na promessa de um milagre: "Inclinei-me. A criança abrira os olhos - aqueles olhos que eu vira cerrados". O Natal fornece estímulo para uma reflexão sobre a dor, a fé e, sobretudo, a força da empatia; traço que, em alguma medida, define o ato de leitura.

Um segundo impulso realça a distância entre fraternidade, implícita na celebração cristã, e desigualdade social, tornada mais aguda pelo óbvio contraste.

O capítulo Festa, de Vidas Secas, explora ao máximo o descompasso: "Fabiano, sinhá Vitória e os meninos iam à festa de Natal na cidade". Uma sucessão de desencontros tem lugar: o sapato desequilibrava o andar desacostumado ao "salto enorme"; os meninos mal conseguiam mover-se, pois "estreavam calça e paletó"; Fabiano buscava em vão esconder o desabrigo da família. Circunstância cinzelada na prosa de Graciliano: "Os meninos também se espantavam. No mundo, subitamente alargado, viam Fabiano e sinhá Vitória muito reduzidos, menores que as figuras dos altares". Em Vidas Secas, a vivência rude opõe doutrina católica a cotidiano sertanejo: "Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela".

Sem cerimônia nenhuma, "o cobrador", personagem do conto homônimo de Rubem Fonseca, traduz numa violência anárquica a defasagem entre comemoração e dia a dia. A descrição da cerimônia é sintomática: "O Natal virou mesmo uma festa. Bebida, folia, orgia, vadiagem". Daí, o cobrador escolhe a dedo o momento de anunciar sua promessa de revolução: "Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve, diz Ana. O Papai Noel do baile eu mesmo quero matar com o facão, digo". Por que não? Em Este Natal, Carlos Drummond de Andrade inovou a galeria dos cobradores urbanos, imaginando um Papai Noel que, "em vez de dar presentes tomava-os das lojas".

Talvez o futuro de Fernando, menino-trabalhador de Aquele Natal Inesquecível, de Luiz Ruffato. Tarde da noite, ele deixa a loja de seu Boi e de Dona Lucinha, levando alguns presentes para a família, mas a noite de Natal em nada difere das demais. O patrão, contudo, lhe deu "uma lembrancinha", que talvez ilumine a festa que ele não conhece: "Rasgou o papel e os dedos adivinharam o canivete-suíço: abridores-de-garrafa e de-lata, saca-rolhas, chaves de fenda e Philips, punção, pinça, lixa-de-unha, tesourinha... a lâmina". Uma faca-só-lâmina que os Fernandos-cobradores aprendem a usar nas muitas noites que gostariam de esquecer.

Essa literatura não celebra, expõe o avesso da data, tal como no conto de Carlos Süssekind, O Anti-Natal de 1951. Nele, um pacato Curador de Menores planeja viajar com seu filho justamente no dia 25 de dezembro. Mas não se trata de uma comemoração inédita, pois o projeto era bem outro: "Atravessaremos a véspera natalina dentro do trem, sem desejar mal nem bem a quem quer que seja, ele lendo, eu nos meus devaneios. Dia 26 de dezembro estaremos de volta". A ruptura com as convenções sociais, contudo, é ironicamente questionada pelo texto, que narra os entraves burocráticos enfrentados pelo pai para emitir as duas passagens. Com ou sem distribuição de presentes, como escapar da mão forte, e nem sempre invisível, do hábito?

Dalton Trevisan oferece uma resposta em Onde Estão os Natais de Antanho?. João deseja fugir da atmosfera natalina, que contamina até os locais menos propícios: "Escorraçou-o do bar a celebração ruidosa dos bêbados". Encontra a alternativa ideal num "exílio de negridão viciosa, no cinema está defendido". Ou quase: ele ainda precisa esquivar-se de "uma voz melíflua", que "de todas as cadeiras vazias escolhe a do lado". Depois, deve driblar uma ratazana no corredor. Mas tudo se justifica desde que a noite se dilua: "passada a hora pior, eis que é um homem. Está salvo daquele Natal. Outro não haverá antes de um ano inteiro".

O humor também é uma forma de dessacralizar o evento e tem sido usado com frequência. Em Peru de Natal, Mário de Andrade abre o conto com uma frase macunaímica: "O nosso primeiro Natal de família, depois da morte do meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar". O tom solene logo se extravia; afinal, a morte do pai, com sua "natureza cinzenta", liberou o narrador para "uma das minhas chamadas 'loucuras'": saborear um suculento peru de Natal, apreciado com a devida volúpia pela mãe, irmã e tia.

De igual sorte, em White Christmas, Luis Fernando Verissimo cria um cenário inimaginável: "E aconteceu que na noite de 24 de dezembro, começou a nevar no Brasil". Pela primeira vez, o Natal nos trópicos conciliaria imaginário europeu e altas temperaturas. O milagre teve duração curta: foram devastadoras as "inundações causadas pelo rápido degelo, pois no dia 26 voltou a ser verão".

O humor também pode ser involuntário. Nos anos de 1930, o jornalista Cristóvam Camargo, adepto do Integralismo, iniciou uma campanha cívica, propondo a substituição do forâneo Papai Noel pelo autóctone Vovô Índio! Getúlio Vargas se entusiasmou pela ideia, que não vingou, mas foi recordada no conto de João Ubaldo Ribeiro, Jingobel, Jingobel (Uma História de Natal). Em homenagem ao Vovô Índio, a ceia também foi adaptada: "Então, ele enchia a casa de jaca, manga, pinha, não admitia nenhuma dessas coisas que antigamente as boas casas tinham no Natal". A mudança maior, porém, tinha outras cores: "Inclusive, teve muita variação, depois que a televisão chegou".

Em Bela Senhora, Nélida Piñon desenvolve o tema. Abandonado pela mulher "na semana anterior ao Natal", um homem não teria companhia para a noite de 25 de dezembro. Sozinho, mas bem acompanhado: "Pareceu-lhe ouvir a voz da animadora" de um programa de televisão - a bela senhora do título. E "o homem sorriu, enamorado das imagens coloridas que, da tela, lhe falavam do Natal".

O Natal que, como Machado-Heráclito ensina, nunca se repete, ainda que a data não se altere.

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