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Ignácio de Loyola Brandão
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Disseram que escrevi ficção científica, ah!

Primeira história: "O muro vai em linha reta, de repente faz um ângulo estreitíssimo, forma um bico de águia, corta uma rua do Oeste, cujas casas ficaram no Leste, atravessa um cemitério, corre paralelo a um rio ou canal, corta uma rua do Leste, cujas casas ficaram no Oeste, passa pelo quintal de conjuntos residenciais, divide uma praça, estrangula pontes, linhas de bonde. Igrejas tradicionais foram demolidas, cortaram condutores de luz, de água, de esgotos. Surreal, fantástico".

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2014 | 02h06

Estou falando de São Paulo e do novo projeto de corredores de ônibus que vão atravessar praças, demolir casas, desapropriar motéis?

Não, estou falando de Berlim, capital da Alemanha (ela, que nos bateu de 7 x 1, provocando um novo trauma, já que precisamos conviver com algum; e agora foram chamar o Dunga, o que equivale a eleger de novo o Celso Pita; argh) e do seu muro, erguido em 1961 e caído em 1989. Palavras de meu livro O Verde Violentou o Muro, de 1986. E aí estão os projetos para novos corredores implantados pelo Poste Número Dois do Lula. O primeiro foi Dilma. O terceiro virá?

Segunda história: "Cumprimento com um aceno, Prata, o barbeiro, me faz um sinal, gosta de uma prosinha. Inevitável, indolor.

Tem água esta semana?

E eu sei? Pergunte ao distribuidor.

É que você tem aquele sobrinho.

Não faço a mínima ideia.

Desorganizaram as entregas, ou aumentaram os prazos.

"Para obter água, precisamos ter fichas, assim como durante a Segunda Guerra Mundial havia cartões de racionamento do pão, da farinha, com longuíssimas filas diante das padarias.

"Chego diante da Casa dos Vidros de Água. Venho todos os dias, às dez e quarenta. Tenho meia hora para passear por dentro dela, sentindo a tranquilidade que existe ali. Há dois anos não consigo começar meu dia sem visitar a Casa. Cada dia uma seção.

"Saio da Casa dos Vidros de Água sempre abalado com o irreparável. Não em relação à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a que as coisas chegaram. Puxa! Não é resignação que me toma quando deixo a última sala e atravesso o corredor artificialmente esverdeado."

A Casa dos Vidros de Água contém, em grandes garrafas, as águas de todos os rios, riachos, córregos, bicas de água do Brasil. As últimas águas foram engarrafadas e se tornaram museu.

"O ministro dos Negócios Imobiliários anunciou com um sorriso embevecido: A partir de hoje contamos também com um deserto maravilhoso, centenas de vezes maior do que o Saara, mais belo. Magnificente. Estamos comunicando ao mundo a Nona Maravilha. Breve, a imprensa mostrará as planícies amarelas, as dunas, o curioso leito seco dos grandes rios.

"A primeira-dama recebeu para imensa festa em tendas de seda fincadas na areia, iluminadas por fogueiras e archotes. Ventiladores agitavam palmeiras artificiais. Os decoradores assistiram a centenas de filmes hollywoodianos de mil e uma noites para se inspirarem e produzirem os incomparáveis cenários."

Era a inauguração do gigantesco Deserto Amazônico.

Certa noite, no prédio em que Souza mora, deu-se a maior agitação.

Viu o que estavam fazendo?

Acharam uma mangueira.

Estava dentro da caixa d'água.

Mas a caixa fica no terraço e a porta é lacrada.

Arrombaram o lacre.

Levaram muita água?

Mais de meia caixa.

Domingo roubaram no prédio da esquina.

- Só tem uma solução, contratar atiradores. Matar ladrão de água não é crime.

Não há mais água no país. O que existe é produto da urina da população reciclada em imensos equipamentos, tecnologia de primeiro mundo.

Uma crônica escrita esta semana? Não, um romance meu publicado em outubro de 1981. O título? Não Verás País Nenhum, hoje com 25 edições e cerca de um milhão de exemplares vendidos ao longo do tempo. Loucura? Ficção científica, como diziam? Ou a realidade corre atrás da literatura? Fica por conta de vocês. Olhem aí em volta.

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