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Dispepsia eleitoral

“E se o público, exausto, decidir que política é problema dos outros?” A frase me despertou no escuro. Tinha colocado um podcast para emudecer em 15 minutos, até cair no sono. O desconforto com esta temporada eleitoral nos Estados Unidos é de tirar o sono.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2016 | 02h00

Amanhã, é possível que Hillary Clinton obtenha os 2.383 delegados necessários para ser a candidata do Partido Democrata, antes mesmo de ser encerrada a votação na Califórnia. Será o último dia de primárias eleitorais em seis Estados. Um derrota na Califórnia para Bernie Sanders será um golpe moral para Hillary e motivo de celebração para Donald Trump.

O comentário que me despertou se refere ao descontentamento evidente com a campanha presidencial no país. O sucesso inesperado de Bernie Sanders é um lado da moeda. Mas o triunfo prolongado de Trump e a dificuldade de Hillary em despertar entusiasmo são sinais de rejeição à política que fazem a alegria do capitalismo autoritário do século 21.

Donald Trump, Vladimir Putin, Narendra Modi, Recep Tayyip Erdogan são estrelas deste retrocesso democrático. Quem haveria de prever que, em 2016, a mulher de um candidato com chance de chegar à presidência dos Estados Unidos acharia de bom tom vir a público com o esclarecimento, “Donald Trump não é Hitler”? Justin Smith, um professor de Filosofia da Universidade de Paris, apontou, no New York Times, a ferramenta comum do quarteto supracitado: Para eles, o passado não é algo a se examinar, e sim a se esculpir.

Vladimir Putin é o mais aplicado e, no momento, bem-sucedido praticante da história como narrativa maleável. Como bom aluno da antiga KGB, ele não hesita em manufaturar história para distrair e controlar seus eleitores, mesmo que seja preciso invadir e anexar a Crimeia para “proteger” a população étnica russa.

Até ser eleito primeiro-ministro, em 2014, Narendra Modi foi proibido de pisar nos Estados Unidos durante uma década, por incitação e cumplicidade com o massacre de mil indianos muçulmanos no Estado de Gujarat que governava. Modi jamais demonstrou remorso pela carnificina que se arrastou por dois meses, ocasionalmente coordenada por agentes de seu governo e que provocou o deslocamento de 150 mil pessoas. Assim como Vladimir Putin, ele se apropriou de métodos ocidentais de marketing e propaganda para vender sua nova Índia, um gigante nacionalista hindu, oposto da sociedade tolerante multicultural de Gandhi.

Erdogan há muito colocou um ponto final na liberalização da sociedade turca e, se não fosse sua utilidade para a União Europeia na crise dos refugiados, seu crescente e bizarro autoritarismo teria lhe rendido isolamento maior.

De volta aos Estados Unidos, estamos testemunhando, sim, o resultado do poder corruptor do dinheiro na política e da alienação produzida pelo deslocamento econômico resultante da globalização. Mas não me consta que uma milionária como a militante atriz Susan Sarandon, às portas dos seus 70 anos, seja parte dos excluídos descontentes. Ainda assim, ela exulta niilismo ao dizer que Donald Trump é menos perigoso para os Estados Unidos do que Hillary Clinton. Diante da ameaça distópica de Donald Trump, qual o senso de história num movimento como “Bernie or bust” (Bernie ou dane-se), que propõe a supressão do voto na provável candidata democrata?

Quem disse “Um grão de terra é mais qualificado para ser presidente”, “É preciso deter este louco” e “Ele é um câncer que precisa ser extirpado”? Três ex-adversários de Trump na campanha que acabam de endossar sua candidatura.

A ordem pós-guerra fria foi, para boa parte do planeta, uma ordem pós-colonialista, desconfiada dos valores ocidentais. Países periféricos, como o Brasil, puderam se dar ao luxo de escarnecer de valores do Ocidente desenvolvido enquanto havia a ilusão de seu triunfo. Mas o preço da erosão destes valores será mais alto para os que nem puderam ter pleno acesso a eles.

 

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