Disk enrolation

A partir de meados dos anos 80, quando já havia me mudado da Califórnia para São Paulo, começaram a chamar minha atenção adaptações locais da língua inglesa. O termo técnico, se não me engano, é anglicismo. Disk foi a primeira palavra, utilizada como verbo. Em inglês, só conhecia o substantivo disk = disco. Disk pizza era uma relativa novidade na época. Começaram a pipocar por toda parte estabelecimentos que adotavam "o sistema delivery de entregas", nas palavras de um reclame.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2010 | 00h00

Não sabia eu, na ocasião, mas o verbo discar existia já havia algum tempo. É de 1938, segundo o dicionário do Antônio Houaiss, num tempo em que os telefones ainda traziam um disco com buracos na frente do aparelho (se você é jovem, já deve ter visto um desses em filmes). O correto em português seria disque, portanto. Mas para dar um ar mais sofisticado, as pizzarias inventaram uma nova ortografia e um verbo novo inexistente em inglês.

Adorava eu essa disposição criativa e popular, que admirava o que vinha de fora, mas sem nenhuma cerimônia, nos seus próprios termos, por vezes irônicos. O melhor de todos era o "x". Como já escrevi aqui mesmo, no Estado, demorei a entender seu significado. Havia degustado inúmeros x-saladas quando, um dia, de repente, na padaria da Rua Rodésia na Vila Madalena, caiu a ficha. "X" era igual a "cheese". Quem diria!? Virei para o freguês ao meu lado no balcão e quase lhe disse: você sabia que "x" deriva da palavra inglesa "cheese, que significa queijo"? Mas consegui me conter a tempo.

Naquele momento, senti que havia passado para um estágio superior na compreensão da cultura brasileira. Nunca mais veria o País da mesma forma. Tecia teorias sobre o assunto baseadas no Manifesto Antropófago do escritor modernista Oswald de Andrade. Ao degustar seus inimigos, os índios antropofágicos do Brasil adquiriam suas qualidades, segundo o poeta. A moderna cultura brasileira faz o mesmo na sua visão ? elaborada na década de 1920. Daí o "x". A equivalência era sonora. Genial, e brasileiro. Antropofagia.

Qual não foi minha surpresa, então, ao ler no jornal New York Times a respeito de uma questão semelhante ? com diferenças culturais importantes ? em Xangai, na China. Como poucos estrangeiros conseguem entender chinês, muitos cardápios, placas e outros impressos trazem traduções para o inglês junto com o original. Mas as traduções tendem para o hilário. Elas têm até um nome: chinglish.

Há um restaurante em Xangai, por exemplo, vi a foto, que oferece "fragrant and hot marxism", ou seja "marxismo quente e aromático". Não consigo imaginar o que se passava pela cabeça do profissional ao elaborar essa tradução. E adoraria ter a capacidade de entender o original. Mas convenhamos, como estilo culinário, chama atenção. Faria sucesso no Brasil se fosse localizado próximo a uma universidade.

Mas "marxismo quente e aromático" é o de menos. Os caixas automáticos dos bancos oferecem um serviço desconhecido no Ocidente: a reciclagem de dinheiro. Não estou brincando. Vi a foto. Pode ser uma atitude sustentável. Mas cá entre nós, eu pensaria duas vezes antes de colocar meu cartão numa caixa recicladora de dinheiro, ainda mais num país comunista.

Os exemplos são inúmeros. Existe um refrigerante com o nome "The Jew"s ear juice", suco de orelha de judeu. Como chegaram a isso é um mistério para mim. "Lavagem intestinal frita" é um prato. As roupas vêm nos tamanhos "gordão" e "baldão de gordura". Quem quiser pode acessar as fotos em: http://www.nytimes.com/2010/05/03/world/asia/03chinglish.html?emc=eta1.

Tudo isso é muito diferente do que acontece no Brasil, onde as palavras de fora são adaptadas à língua local. Na China, a questão é de tradução. É para estrangeiros, para inglês ver. Mas mesmo assim, dá vontade de conhecer melhor o idioma e a mente dos chineses. De onde poderiam tirar suco de orelha de judeu? Convenhamos.

Fico feliz ao perceber que as novas gerações de brasileiros, falantes de inglês, continuam a fabricar estrangeirismos com a mesma alegria e ironia das anteriores. A palavra enrolation, para dar apenas um exemplo, ainda vai constar no Webster"s, o dicionário mais consultado dos EUA. Globalização é isso.

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