Discursos inflamados de Gabo

Escritor reúne em livro textos que escreveu para serem lidos em voz alta

Carmen Sigüenza, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Gabriel García Márquez considera os discursos "o mais terrível dos compromissos humanos", mas acredita que podem ter utilidade prática. É o que afirma em Não Venho Discursar, livro no qual reuniu os textos que escreveu com a intenção de serem lidos em voz alta. Um livro em que se reconhece a prosa cheia de música, da magia e da alma do escritor colombiano, prêmio Nobel de Literatura, publicado seis anos depois de seu romance curto Memória de Minhas Putas Tristes (Record).

Em Não Venho Discursar, que chegou às livrarias na quinta-feira, na Espanha e na América Latina, publicado por Mondadori, García Márquez selecionou vinte e dois textos que percorrem sua vida, desde o que escreveu aos 17 anos como a despedida dos colegas de faculdade em Zapaquirá, em 1944, até o que leu no México na Academia da Língua diante dos reis de Espanha, em 2007.

Encanto. A poesia, a escritura, a América Latina, o jornalismo como o melhor dos ofícios, o cinema, o meio ambiente, seus amigos escritores ou políticos, como o ex-presidente da Colômbia, Belisário Betancur ou o escritor Álvaro Mutis são alguns dos temas dessas composições literárias - porque é assim que podemos considerar esses discursos ou relatos impregnados de encanto e de sua chancela pessoal.

Nessas páginas, o romancista laureado revela por que ele enveredou pelo caminho das letras: "Comecei a ser escritor da mesma forma como subi neste estrado: forçado", diz o autor de Cem Anos de Solidão. E essa aventura teve início quando o escritor colombiano resolveu escrever um conto "para calar a boca de Eduardo Zalamea Borda", que havia declarado que as então atuais gerações de escritores não ofereciam nada de novo.

Um conto que o escritor mandou a El Espectador e que o periódico publicou em um domingo em página inteira, com uma nota de rodapé reconhecendo que havia se enganado, e que nesse conto surgia o gênio da literatura colombiana. Em seguida, García Márquez admite que "o ofício do escritor é talvez o único que se torna mais difícil à medida que vai sendo praticado". O livro inclui também o belo discurso engajado que ele leu ao receber o Prêmio Nobel em 1982, A Solidão da América Latina.

É sua reivindicação, como escritor e como pessoa, da singularidade da América Latina, na qual, entre outras coisas, afirma: "Por que a originalidade que nos é reconhecida sem reservas em nossa literatura, nos é negada com todo tipo de suspeições em nossas tentativas tão difíceis de mudança social?" E continua: "Por que pensar que a justiça social que os europeus avançados querem impor em seus países não pode ser também um objetivo latino-americano com métodos diferentes em condições diferentes?" Também em sua inflamada defesa da imaginação, ele escreve que a "América Latina é o primeiro produtor mundial de imaginação criadora, a matéria básica mais rica e necessária do mundo novo..."

Memória. A respeito do jornalismo, Gabo, como é conhecido, diz que se aprende "fazendo", que a boa primícia "não é a que se dá primeiro, mas a melhor" ou que o gravador não é o substituto da memória. A publicação de Não Venho Discursar coincide curiosamente com o lançamento, na quarta-feira, do novo romance de Mario Vargas Llosa, El Sueño del Celta, acontecimento carregado de expectativa pela recente concessão do Nobel ao escritor peruano.

Assim, estarão lado a lado nas livrarias os dois livros dos escritores mais representativos do chamado boom latino-americano, igualados pelo Prêmio Nobel, grandes amigos de outrora, mas com algum problema pessoal que agora os torna irreconciliáveis, e com uma multidão de seguidores. Leitores que se dividem por seus gostos diferentes e em muitas ocasiões se colocam como torcedores de futebol: ou são partidários de García Márquez ou de Vargas Llosa, por suas formas tão distintas de escrever e de ver o mundo. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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