Paul Buck/EFE
Paul Buck/EFE

'Discurso' confirma favoritismo

Melhor filme levou ainda prêmios de direção, ator e roteiro original; 'A Origem' venceu em quatro categorias técnicas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

Meia-noite e meia. Rubens Ewald Filho, que comenta a 83ª cerimônia de entrega do Oscar para a TNT, evoca uma lenda urbana quando A Rede Social, de David Fincher, recebe seu terceiro prêmio, o de montagem. "Há uma lenda que diz que quem ganha melhor montagem ganha também melhor filme." Ela não se concretizou. O Discurso do Rei, que já recebera os prêmios de direção (para Tom Hooper), roteiro original e melhor ator (para Colin Firth), encerrou a noite recebendo a estatueta de melhor filme. Foi o grande vencedor do Oscar de 2011, para os melhores de 2010.

Confirmou-se o favoritismo do filme, da mesma forma que o de Natalie Portman, na categoria de melhor atriz, por Cisne Negro. Foi o único Oscar do filme de Darren Aronofsky, definido por sua estrela como "um visionário". Em matéria de agradecimento, Tom Hooper foi muito simpático - agradeceu ao seu elenco, claro, e O Discurso não seria o mesmo sem Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter. A surpresa foi ver o diretor responsabilizar sua mãe pelo sucesso. Foi ela quem, assistindo a uma leitura dramática, descobriu o personagem e exortou o filho a fazer um filme sobre ele. Que lição se pode tirar disso? "Ouça sua mãe", disse o próprio Hooper.

A festa havia começado sob o signo da família. Quando os apresentadores James Franco e Anne Hathaway a iniciaram, a avó dele e a mãe dela levantaram-se na plateia do Kodak Theatre para lançar recados aos rebentos famosos. "Olhe a postura, Anne." O público quase veio abaixo quando Anne retrucou - "Não acredito, mãe, que você esteja me criticando..." A cerimônia foi longa, mas não arrastada. Teve momentos ótimos - as letras satíricas sobre as imagens dos indicados para melhor canção; a homenagem a Lena Horne, saudada por Halle Berry (lindíssima) como uma pioneira que abriu caminho para os negros em Hollywood.

E ainda não foi desta vez que o Brasil ganhou "meio" Oscar. A expectativa por O Lixo Extraordinário, de Lucy Walker - o brasileiro João Jardim contribuiu com muitas das imagens -, não se concretizou e o Oscar de documentário foi para o favorito Trabalho Interno, de Charles Ferguson. A apresentadora Oprah Winfrey ressaltou a categoria como a mais séria. Como os demais concorrentes, o vencedor lança um olhar muito crítico sobre o mundo atual, ajudando a entender a crise financeira de 2008.

Para fazer frente a tanta seriedade, todo mundo fez piadinha na 83ª cerimônia de entrega do Oscar. Justin Timberlake disse que era Banksy - o grafiteiro que nunca dá as caras - e Mila Kunis, que entregava prêmio com ele, não entendeu. Falando com dificuldade - decorrência da trombose que sofreu -, o veterano Kirk Douglas, indicado três vezes para o prêmio, proclamou seu amor pelas mulheres, e pela apresentadora Anne Hathaway, perguntando-se onde ela estava quando ele fazia filmes? Não era nem projeto de gente, Kirk.

Para velhos cinéfilos, a presença do pai de Michael Douglas talvez tenha sido o destaque da festa. Velhinho e bem humorado, ele ironizou a própria condição de eterno perdedor. Deu, se é que se pode dizer assim, uma lição de vida. James Franco e a bela Anne foram apresentadores simpáticos - mudavam de figurino a cada bloco e, lá pelas tantas, ele se vestiu de mulher, dando uma de Marilyn Monroe - e a cerimônia começou sem grandes surpresas. A Origem, de Christopher Nolan, ganhou quatro prêmios - fotografia, mixagem de som, edição de som e efeitos especiais -, todos técnicos. Isso já era esperado, mas seria reducionista dizer que o filme vale só pelo brilho técnico e visual. A técnica, em A Origem, está a serviço de um conceito, e ele remete à essência do cinema como arte do sonho - ou de sonhar acordado.

Alguma dúvida de que Toy Story 3, de Lee Unkrich, seria o vencedor da estatueta de animação? O Oscar de coadjuvante de Christian Bale já era fava contada - por O Vencedor -, mas o poderoso drama de David O. Russell somou a este outro prêmio de coadjuvante para Melissa Leo. A Rede Social havia despontado como favorito dos críticos, até ter sua carreira desacelerada pelos prêmios que os sindicatos (de produtores, diretores, roteiristas, atores etc) foram dando ao filme de Tom Hooper. Uma das exceções foi o de roteiro adaptado - Aaron Sorkin não havia vencido o prêmio da "liga", mas levou o Oscar da categoria. Sorkin declarou-se honrado de estar recebendo um prêmio que já coubera ao lendário roteirista Paddy Chayefsky.

David Seidler, que venceu na categoria de roteiro original, por O Discurso do Rei, fez um dos discursos mais breves e emocionantes da noite. O próprio Seidler era gago e agradeceu à Academia por haver dado uma voz aos que, como ele - e o rei George VI, da ficção que escreveu -, não tinham. Finalmente, à 1h30, o grande momento - Steven Spielberg entra no palco, apresenta os indicados e dez minutos mais tarde anuncia a vitória de O Discurso do Rei. Foram quatro prêmios para O Discurso - o mesmo número dos de A Origem, mas com uma ressonância muito maior.

Para encerrar a noite, a Academia levou um coro de crianças, que cantaram Over the Rainbow, o tema imortalizado pela jovem Judy Garland em O Mágico de Oz, de Victor Fleming. A pergunta que não quer calar - quem foi a mais elegante da noite? Uma das mais foi, com certeza, a candidata a atriz coadjuvante Hailee Steinfeld. A jovem protagonista de Bravura Indômita, a versão dos irmãos Coen, desenhou o próprio vestido. 

OS PRINCIPAIS PREMIADOS

FILME: O Discurso do Rei

DIRETOR: Tom Hopper (O Discurso do Rei)

ATRIZ: Natalie Portman (Cisne Negro)

ATOR: Colin Firth (O Discurso do Rei)

ATRIZ COADJUVANTE: Melissa Leo (O Vencedor)

ATOR COADJUVANTE: Christian Bale (O Vencedor)

ROTEIRO ADAPTADO: A Rede Social

ROTEIRO ORIGINAL: O Discurso do Rei

FILME ESTRANGEIRO: Em Um Mundo Melhor

TRILHA SONORA: A Rede Social

MAQUIAGEM: O Lobisomem

FIGURINO: Alice no País das Maravilhas

FOTOGRAFIA: A Origem

DIREÇÃO DE ARTE: Alice no País das Maravilhas

DOCUMENTÁRIO: Trabalho Interno

MONTAGEM: A Rede Social

CANÇÃO ORIGINAL: We Belong Together (Randy Newman)

LONGA DE ANIMAÇÃO: Toy Story 3

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